Parece Cocaína Mas É Só Açúcar

…e de repente, não mais que de repente, aquela vontade súbita de comer um doce toma conta de seus pensamentos – é uma necessidade – você não consegue mais se concentrar, fica inquieto e ansioso. Vai até a cozinha salivando só de imaginar aquele pedaço de chocolate derretendo em sua boca e assim que o morde…hum…Aquele alívio, você se acalma, fica feliz e sente um prazer quase indescritível com aquele açúcar todo correndo por suas veias… Você, caro leitor, conseguiu se enxergar nesta situação enquanto estudava, trabalhava ou assistia tv?

Se já passou por isso, sabe do que estou falando, e se não passou, acredite, tem muitas pessoas que chegam a ficar neste estado devido ao vício que desenvolveram por doces.

Estas pessoas são viciadas em um pó branco, mas neste caso ele leva o nome de açúcar e desempenha papel semelhante ao da cocaína no cérebro delas. Existem grandes evidências, embasadas por diversos estudos, de que os alimentos ricos em açúcar, gordura e sal – as conhecidas junk-foods – são capazes de alterar a química do cérebro da mesma maneira que as drogas.

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Corte o açúcar!

Junk-Food: O Grande Vilão

A incidência de obesidade e de doenças relacionadas – inclusive diabetes mellitus, e elevação dos níveis de colesterol e triglicérides – cresce incessantemente ao redor do mundo. Só no Brasil são mais de 10 milhões de obesos – conforme dados da Comissão de Obesidade do Brasil. Mas será que isso é tão grave quanto um vício naquilo que se convencionou chamar de drogas?

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Em 1988, essa noção de “sucrólata” começou a se tornar conhecida e mais pessoas conseguiram descobrir se eram ou não viciadas graças ao livro Lick the Sugar Habit (Derrote o Hábito do Açúcar) de Nancy Appleton, uma viciada confessa.

 Já em 2001*, dois neurocientistas americanos, Nicole Avena e Bartley Hoebel, começaram uma série de estudos para saber se o vício em açúcar tinha uma base biológica. E é sobre esses estudos que falaremos a seguir.

 

 

 

O Vício Em Doces e em Fast-Foods: Estudo Com Roedores

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Veja só quanto açúcar há em meio copo de refrigerante

Estudos feitos em ratos por Avena e Hoebel mostraram que quando um grupo de ratos acostumado a tomar todos os dias um xarope de açúcar – muito similar aos refrigerantes – era mantido sem o composto de glicose, eles se comportavam como ratos viciados em morfina, apresentando inclusive sinais clássicos de síndrome de abstinência.

Além disso, outro achado importante foi que os pesquisadores observaram a liberação de dopamina – hormônio estimulador da busca por prazer e fundamental para o aprendizado, a memória e o sistema de recompensas – no cérebro dos roedores sempre que eles se entupiam de xarope, mesmo depois de ingeri-lo por dias seguidos. Isso é bastante surpreendente, uma vez que o esperado era a liberação do hormônio quando comessem algo novo – e não um alimento ao qual já estivessem acostumados. Segundo Nicole, “esse é um dos marcos do vício em drogas”.

Em outro estudo feito pelo neurocientista Paul Kenny, do Instituto de Pesquisa Scripps, na Flórida, ratos foram exclusivamente alimentados com fast-food. Isso é ainda pior do que uma dose de açúcar, assimilando-se mais a um verdadeiro coquetel de açúcar, sal e gordura – durante 40 dias**. Ao final deste período, eles rejeitaram outros tipos de alimentos. “Foi como se tivessem adquirido aversão à alimentação saudável”, diz Kenny. Os animais levaram quase duas semanas para voltar a comer normalmente.

O que o cientista não esperava era a igualdade entre o vício causado pelo acesso ilimitado às fast-foods a que os roedores foram expostos, e aquele advindo das drogas: “[em ambos os casos] as mudanças ocorreram rapidamente e vimos efeitos impressionantes”.

 

Surto De Prazer: O Vício Nos Humanos

Depois dos testes com ratos, estudos feitos em humanos só confirmaram os achados e fizeram a balança pender para o lado de rotular como vício a vontade exacerbada por junk-foods. Costuma-se descrever esta dependência como amortecimento do sistema cerebral de recompensas assim como o vício provocado pelo uso excessivo de alguma droga.

Gene-Jack Wang, do Departamento de Energia dos EUA, descobriu em 2001 uma deficiência de dopamina no cérebro dos obesos parecida com aquela encontrada no cérebro dos viciados em drogas. Mais tarde, Wang constatou que apresentando a um obeso o seu prato favorito, seu cérebro se inunda do neurotransmissor, assim como acontece com um dependente químico quando avista uma porção de sua droga.

Em outros estudos, Eric Stice, neurocientista do Instituto de Pesquisa do Oregon, descobriu que adolescente magros com pais gordos tinham um surto de dopamina mais forte ao receber uma dose de milk-shake do que os filhos de pais magros. “Há pessoas para quem comer é mais orgásmico”, diz Stice.  Quando essas pessoas comem demais, o sistema de recompensa se amortece, tornando a comida menos satisfatória e as motivando a comer mais para compensar – exatamente como acontece com os alcóolatras, por exemplo.

Ele também demonstrou que certas pessoas têm reação amortecida à dopamina quando comem alimentos apetitosos, o que faz com que elas comam mais para obter um nível compensador de liberação de testosterona, tornando-as mais vulneráveis à obesidade.

Juntando todos esses estudos feitos com humanos, pode-se concluir a existência de duas vias para o vício em comida: para alguns dos viciados a comida é mais compensadora do que seria para o restante das pessoas, para outros, ela não é suficiente para gerar satisfação. Em ambos os casos, eles acabam buscando sempre comer mais daquilo que desejam.

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Junk Food: Aprecie com moderação

 

“Mas Senhor Tanquinho, se estes alimentos agem como drogas, por que não proibi-los?”

Meu caro leitor, já imaginou a revolta que seria se isso acontecesse? Eu mesmo me entupo de porcarias no Dia do Lixo e você também deve adorar come-las, não é mesmo?

Brincadeiras a parte, o que deveria ser feito é uma regulamentação da indústria alimentícia por parte do governo, ou no mínimo a proibição da exibição de propaganda relacionada a este tipo de “comida” sem a devida conscientização da população sobre os riscos de se ingerir junk-foods.

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Algo semelhante aconteceu com a indústria do cigarro na década de 1960 quando o advogado americano John Banzhaf ganhou um processo na justiça que obrigou as emissoras de rádio e televisão a cederem espaço gratuito para mensagens contra o tabagismo. Ele acredita que há pesquisas suficientes para que o Ministério de Saúde público de seu país publique um relatório sobre o vício em comida assim como fez com relação à nicotina.

Nos anos 1990, foi proibido no Brasil a veiculação de propaganda de cigarros e as empresas ainda foram obrigadas e colocar alertas de saúde nas embalagens do produto.

Porém, neste caso a luta seria ainda mais difícil já que uma fast-food não é uma única substância química, mas sim uma bomba de açúcar, sal e gordura. Por isso, seria necessário haver algo mais especifico a respeito da quantidade de cada um desses “nutrientes”.

Nos Estados Unidos, país que apresenta alarmantes 35% de sua população obesa, sinais de mudança começam a aparecer. Em Nova York e na Califórnia, as gorduras trans foram banidas dos restaurantes e os refrigerantes proibidos nas escolas.

As indústrias de alimentos e bebidas do tipo já estão se preparando para a luta. “Esses alimentos só são viciantes para um determinado subconjunto de consumidores que não exerce a necessária disciplina”, diz Hank Cardello, ex-executivo de empresas alimentícias. Ele também não acredita na destruição das empresas produtoras de fast-food por causa da diminuição dos impostos para o setor de indústrias de alimentos de baixa quantidade calórica. É claro que o supremo poder está nas mãos do consumidor.

O Ministério da Saúde Adverte: Este produto contém 145 g de açúcar e seu consumo em excesso pode causar obesidade e diabetes tipo 2.

O Senhor Tanquinho não é a favor de nenhuma proibição nas vendas de nenhum tipo de produto, mas é totalmente a favor da conscientização das pessoas sobre os malefícios que alguns alimentos podem causar por meio de propagandas para população. O Senhor Tanquinho acredita, sobretudo, no poder da saúde – e no poder da informação.

*Note que, mesmo com o livro atingindo grande sucesso de vendas e auxiliando a melhorar a vida de milhões de pessoas, ainda assim 13 anos se passaram até que estudos fossem feitos e seus resultados fossem divulgados!

**Fato similar foi executado em um ser humano, e foi fartamente documentado. Esse “auto experimento” deu origem ao fascinante filme Super Size Me.

  • NEIDE

    achei muito importante,me ajudou a tirar muitas duvidas.NEIDE

  • Adriana

    Faltaram as fontes dos estudos citados. Bibliografia dá mais credibilidade ao artigo, além de permitir a consulta aos interessados, claro. Mas devo dizer que está muito bem feito, bem escrito e provocador. Parabéns!