Corpos Cetônicos: Não Seja Um Refém Das Medições

Tradução, adaptação e finalização por Guilherme Torres e Roney Fernandes. O texto original é do Dustin Sikstrom e está aqui.

Quando falamos de dieta cetogênica, pode surgir um erro muito comum, e  que confunde principalmente os iniciantes.

E ele é baseado em um fato: o de que os corpos cetônicos são produzidos a partir de gordura.

Até aí tudo bem. Mas o erro é o seguinte.

Acreditar que, quanto mais corpos cetônicos tivermos, maior será a queima de gordura.

E isso, infelizmente, não é o caso.

No texto de hoje, vamos abordar essa questão, e descobrir:

  • o que são os corpos cetônicos,
  • como podemos medir as cetonas (via sangue, respiração ou urina), e
  • por que talvez seja melhor você jogar suas fitinhas de cetose no lixo.

Para abordar esses pontos adequadamente, vamos precisar falar um pouco sobre bioquímica – mas não vai doer, eu juro.

Um Pouco De Bioquímica

Esta imagem acima é, infelizmente, a mais simples que podemos usar para os nossos propósitos neste artigo – mas não se preocupe, vamos explicar tudo para você.

Ela representa o que acontece quando reduzimos a ingestão de carboidratos.

Isto é: as gorduras começam a ser utilizadas como fontes de energia (por meio de um processo chamado de lipólise).

O que tende a acontecer quando se ingere cerca de 50g a 150g de carboidratos ao dia.

(Note que esse nível de ingestão de carboidratos geralmente não é o suficiente para a maior parte das pessoas entrar em cetose.)

Na verdade, com esse nível de ingestão de carboidratos, a pessoa passa a utilizar muita energia vinda de ácidos graxos livres (na imagem, FFAs).

Mas seu cérebro ainda estará utilizando glicose (pois ele não consegue usar ácidos graxos livres – apenas glicose ou corpos cetônicos).

Sendo que ele pode suprir a glicose faltante por meio da gliconeogênese – que é basicamente um processo no qual seu corpo produz glicose a partir de outros substratos (como aminoácidos ou glicerol).

Porém, ao se reduzir ainda mais a ingestão de carboidratos, a gliconeogênese não consegue gerar glicose o suficiente para suprir toda a energia do cérebro.

Nesse caso, o corpo passa a utilizar as cetonas (corpos cetônicos) para suprir a maior parte dessa demanda.

É aí que entramos em cetose.

Resumindo a bioquímica

Apenas por ingerir menos carboidratos, você já passa a queimar ácidos graxos (gordura) como energia.

Mas essa ingestão tem de ser suficientemente baixa para que o corpo entre em cetose.

Leia também: Existe “proteína em excesso” na dieta cetogênica?

Corpos Cetônicos No Sangue

Uma vez que entramos em cetose, o nosso fígado passa a produzir corpos cetônicos.

Esses corpos cetônicos não ficam “estacionados” no fígado: eles passam a circular no sangue.

Justamente por esses corpos cetônicos saírem para a corrente sanguínea é que os medidores de cetonas do sangue são considerados a maneira mais precisa de testar os níveis de cetose – porque o sangue é o “depósito de combustível” dos corpos cetônicos.

Mas e aquelas fitinhas que medem a presença de corpos cetônicos na urina?

Infelizmente elas não são uma maneira boa e precisa de medir corpos cetônicos e cetoadaptação – e nós vamos explicar o porquê.

Corpos Cetônicos Na Urina

Provavelmente a maneira mais comum de medir os corpos cetônicos é verificar a concentração deles na urina.

Isso geralmente é feito com fitinhas que podem ser compradas em farmácias ou na internet.

Porém, essa medição não te diz praticamente nada sobre o quanto de corpos cetônicos você está usando para gerar energia.

Para ilustrar: isso seria equivalente a olhar a sujeira que se depositou no motor de um carro para tentar descobrir quantos quilômetros ele rodou.

Essa analogia é válida porque em ambos os casos você está vendo apenas o um subproduto (um resíduo do que realmente importa) e que varia de situação para situação com base em muitos fatores.

E que por isso vai ser incapaz de te dizer o consumo de combustível do carro.

Pois as fitinhas de urina apenas mostram o excesso de corpos cetônicos que você produziu, e que não foram utilizados para gerar energia.

Afinal, foi justamente por não terem sido utilizados para gerar energia que eles foram expelidos através da urina.

Além disso, conforme vemos na figura acima (a da bioquímica), praticamente apenas a acetona é excretada através da urina.

(E não o BHB e nem o acetoacetato, que são os outros dois tipos de corpos cetônicos, e que abordaremos mais abaixo.)

Isso sem contar outros fatores – como a sua hidratação, que também influencia a concentração de corpos cetônicos da urina.

Ou seja, a cor da fitinha pode mudar até mesmo de acordo com quanta água você ingere.

Isto é: o tanto de água que você bebe altera o resultado de um teste que (supostamente) deveria medir se você está em cetose ou não.

A água não te tira da cetose – mas pode mudar o resultado do exame.

Isso não é muito confiável, não é mesmo?

Corpos cetônicos na urina: uma lição importante

Se você aprender apenas uma coisa com este texto, é a de que você deveria parar de usar fitas de medição de cetose na urina.

Por mais icônica que a imagem das fitinhas seja, a verdade é que elas não foram feitas para medir cetose em pessoas saudáveis buscando atingir a cetose nutricional.

Na verdade, elas são produtos para diabéticos, que servem medir seus níveis de corpos cetônicos, para assim garantir que não entrem em cetoacidose.

(Esta é uma condição que não acontece com quem tem função normal da insulina.)

No final das contas, usar as fitinhas para medir cetose geralmente acaba levando a duas coisas – que, na nossa opinião, são dois erros.

A primeira é que você ficará com ansiedade em relação aos resultados das medições, se perguntando se seus níveis estão normais ou se você fez algo errado.

(Assim como muita gente fica ansiosa com a balança quando confia apenas nela para avaliar seu progresso – e não em medidas corporais, por exemplo.)

E a segunda é que você vai se enganar quando de fato fizer algo “errado”.

Por exemplo, se você comer muitos carboidratos, seu corpo vai preferir metabolizar a glicose primeiro.

Isso vai fazer com que ele pare de utilizar os corpos cetônicos circulantes – que ficarão em “excesso” e serão eliminados na urina.

Assim, você vai ver uma boa concentração deles na urina e pensar “ah, eu ainda estou em cetose” – sendo que, na verdade, você só está vendo cetonas na urina justamente porque você não está mais em cetose.

Porém, ainda falta abordarmos o último método de medição de cetose: as acetonas presentes no hálito ou respiração.

Corpos Cetônicos Na Respiração

A presença de acetona na respiração é um indicador confiável de cetose – especificamente porque ela se correlaciona diretamente com a presença de beta-hidroxibutirato (BHB) no sangue.

(Sendo que o beta-hidroxibutirado (BHB) não é tecnicamente uma cetona, mas para propósitos práticos é considerado um tipo de corpo cetônico – sendo uma das principais fontes de energia na dieta cetogênica, por ser capaz de “alimentar” o cérebro.)

O que acontece é que o BHB pode se converter em acetona, que depois é excretada através da respiração.

De forma que podemos medir essa concentração de acetonas expelidas pela respiração e chegar assim na concentração de BHB que foi utilizado.

O problema é que, em alguns casos, mesmo a acetona que não é proveniente do BHB pode acabar sendo excretada através da respiração – o que atrapalharia uma correta medição da cetose por esse marcador.

Então, a “fórmula” fica assim:

O fígado produz cetonas para circular como cetonas de sangue –>

O corpo usa o que precisa, e produz um subproduto (BHB) que é excretado através da respiração na forma de acetonas –>

Aqueles corpos cetônicos que não são usados ​​são excretados através da urina.

Leia também: as 20 maiores perguntas dos iniciantes na dieta cetogênica

Mas Quantas Cetonas Estamos Usando?

Retomando a analogia do carro, o que a maior parte das pessoas quer saber é quanto “combustível” (corpos cetônicos) estamos utilizando.

Mas isso é basicamente impossível, porque tudo o que podemos ver é o tanque de combustível.

Pense desta maneira: a energia utilizada é o nosso motor, o escapamento é a nossa respiração (saem alguns resíduos, mas também alguns subprodutos naturais), a urina é o depósito de carbono (basicamente só resíduos), e os corpos cetônicos no sangue são o tanque de combustível (onde fica o “combustível”).

Nesse exemplo hipotético, nosso carro está funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana (porque é o que seu corpo faz!) e, por algum mecanismo, o carro nunca fica sem combustível (ele é automaticamente recarregado).

Então, quando vemos o tanque de combustível e ele diz “meio tanque”, isso seria como ver nossas cetonas a 1 mmol / L.

Ou seja: isso significa apenas que ainda existem cetonas disponíveis (naquele momento, ainda há combustível no tanque).

Nós não sabemos quanto estamos consumindo, porque não sabemos quanto está entrando.

Seguindo a analogia, nós poderíamos tentar coletar todos os gases de escape (as cetonas da respiração), todos os resíduos produzidos (as cetonas da urina), e tentar subtrair a diferença entre as mudanças em nosso “tanque de gasolina” (as cetonas do sangue).

Mas isso ainda seria um pouco impreciso – porque haveria muitos fatores para considerar a quantidade de energia que está sendo usada.

Mas então qual lição podemos aprender sobre a medição de corpos cetônicos?

A lição é: não se preocupe com as medições.

Você não precisa se preocupar, porque seu corpo naturalmente tenta encontrar um equilíbrio para funcionar de forma eficiente.

Isto é: certamente ele não quer produzir cetonas em excesso e desperdiçar energia.

Inclusive, você pode até mesmo encontrar corredores de provas de resistência (endurance ou ultra endurance) que estão em cetose há anos, e que correm vários quilômetros todos os dias, e que apresentam apenas 0,1 mmol / L no sangue.

Isso acontece porque o corpo desses atletas está usando os corpos cetônicos praticamente na mesma taxa em que as produz.

Ou seja, não estão sobrando muitas cetonas para serem expelidas pela urina.

Isso não significa que seu corpo não está usando cetonas.

Muito pelo contrário: esses atletas estão constantemente fazendo exercícios aeróbicos, o que faz com seus corpos estejam constantemente usando as cetonas.

Por outro lado, também existem pessoas que começam a apresentar quantidades mais elevadas de cetonas na urina.

Nesse caso, o que pode estar acontecendo é que seu organismo está tentando produzir mais corpos cetônicos para fornecimento de energia, mas suas mitocôndrias ainda não estão totalmente adaptadas ao uso de cetonas, então acaba havendo uma maior secreção delas através da urina.

Isto é: você ainda está em uma fase de adaptação.

E isso reitera a mensagem: não se preocupe com a medida de cetonas.

Se você é um adulto saudável, há muito poucas razões para medi-las (uma vez que você já entendeu que a redução do carboidrato causa produção e uso de cetonas.)

Vamos falar agora de alguns casos específicos nos quais pode ser interessante medir as cetonas na urina.

Um exemplo é para o caso de você querer descobrir como certos alimentos com carboidratos afetam seu organismo.

Ou se você estiver praticando exercícios, e quiser descobrir qual é o seu limite do uso de cetonas (comparado ao uso de glicogênio) como energia.

De fato, quanto mais você olha e mede questões específicas de exercícios, mais a medição de cetonas se torna necessária (inclusive de acordo com o trabalho de Volek e Phinney em particular).

Se esse não é o seu caso… apenas siga seu estilo de vida cetogênico com tranquilidade, e seja feliz – sem se apegar excessivamente a mais um número.

Relacionado: se você deseja usar a dieta cetogênica para atingir seus objetivos mas não sabe por onde começar, confira nosso programa Guia Dieta Cetogênica.

Resumindo

Se você encontrou na dieta cetogênica a solução para:

  • emagrecer e manter o peso perdido,
  • se sentir bem disposto(a) e energizado(a),  e
  • adotar essa alimentação como estilo de vida

Então esses são os exatos 3 pontos com que você deve se preocupar – e não com a cor da fitinha em que você faz xixi.

Referência

  1. http://ajcn.nutrition.org/content/76/1/65.full

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