Gliconeogênese: O Que É E Qual Seu Papel Na Dieta Low-Carb

Tradução, adaptação e finalização por Guilherme Torres e Roney Fernandes. O texto original é da Mestra em Nutrição Ellen Davis e está aqui.

Gliconeogênese: O Que É?

A gliconeogênese (GNG) é um processo metabólico através do qual o corpo produz sua própria glicose a partir de fontes que não são os carboidratos.

Na gliconeogênese, a glicose (que é um combustível necessário para o corpo) pode ser produzida a partir de proteínas (aminoácidos), do lactato dos músculos ou do componente glicerol dos ácidos graxos.

Nosso corpo possui esse mecanismo porque nossos níveis de glicose no sangue devem ser mantidos dentro de uma determinada faixa para uma boa saúde.

Por exemplo, se o açúcar no sangue estiver muito alto, podem ocorrer danos em tecidos e órgãos – como no caso do diabetes.

Por outro lado, se ele estiver muito baixo, a respiração celular e a produção de energia podem ser comprometidas.

Isso é especialmente verdade para aquelas pessoas que utilizam a glicose como fonte primária de energia (ou seja, que ainda não estão cetoadaptadas).

Portanto, a capacidade do fígado e rins de “fazer novos açúcares” de modo a regular os níveis de glicose no sangue é fundamental.

(Entenda o nome desse processo: “glico” = açúcar, ”neo” = novo, ”gênese” = criação: a criação de novos açúcares.)

A principal vantagem deste processo é que ele ajuda o organismo a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis mesmo na ausência da ingestão de alimentos que contenham carboidratos ou açúcares.

Sem a gliconeogênese você não viveria muito tempo, especialmente sem comida.

Já que seu corpo precisa ter um nível estável e constante de glicose para manter seu cérebro e glóbulos vermelhos funcionando.

Glicose E A Falta de Conhecimento

comer de 3 em tres horas não te ajuda a emagrecer é mito e mentira, saiba a verdade!

Se você decidir fazer jejum, ou mesmo se você começar a seguir uma dieta cetogênica low-carb, então sua ingestão de carboidratos irá diminuir.

Para compensar essa diminuição de açúcares em sua dieta, o fígado passará a produzir a glicose que o sangue precisa ao quebrar o glicogênio armazenado em seus músculos e no seu próprio fígado.

Este processo é chamado de gliconeogênese.

Porém, uma hora esse glicogênio vai acabar (mais ou menos 30 horas se você estiver sem comer nenhum tipo de carboidrato – embora esse número varie grandemente de pessoa para pessoa, dependendo de atividade física e outros fatores).

Nesse momento, o corpo vai passar a metabolizar glicose a partir de outras fontes, quebrando para isso:

  • gorduras, que podem ser provenientes de seu tecido adiposo ou dos alimentos ingeridos;
  • proteínas, provenientes dos alimentos ou dos seus músculos.

E é por isso que, ainda hoje, alguns nutricionistas e profissionais desatualizados insistem que a existência desse processo prova que os carboidratos são “alimentos essenciais”.

Eles alegam que as pessoas devem comer muito carboidrato, porque, caso contrário, o fígado vai queimar tecido muscular para fazer a glicose necessária para alimentar o cérebro.

Mas isso não é verdade quando se segue uma dieta baixa em carboidratos.

Pois, como sempre gostamos de dizer, não seria inteligente para nosso corpo quebrar nossos músculos para produzir essa energia uma vez que temos um depósito de gordura prontinho para ser usado.

Olhando nosso passado evolutivo, fica claro que não teríamos chegado até aqui se fosse isso que acontecesse: nossos antepassados ficavam dias sem comer, mas nem por isso definhavam. Pois isso que tornaria impraticável realizar atividades vitais como caçar, colher frutos, ou mesmo mastigar.

Uma vez alcançado o estado de cetose nutricional, seu corpo pode usar corpos cetônicos como combustível primário, e metabolizar toda a glicose que precisa a partir das proteínas e gorduras de sua alimentação.

Em outras palavras, se você comer proteínas e gorduras suficientes todos os dias para garantir a manutenção do seu corpo, isso proporcionará aminoácidos o bastante para a gliconeogênese, e seus músculos permanecerão intactos.

Leia também: Quanta proteína você realmente precisa?

E isso já foi comprovado em diversos estudos.

Nesse caso, o corpo vai queimar a gordura armazenada e utilizá-la como combustível – o que, afinal de contas, é o que todo mundo quer.

E é exatamente isso que acontece quando você limita sua ingestão de carboidratos.

Na verdade, todo mundo passa por este processo de gliconeogênese constantemente durante o dia todo, e especialmente durante a noite, enquanto você dorme.

Afinal, durante as mais de 6-9 horas que você está dormindo e não ingere comida, seu corpo está ativamente produzindo açúcares para manter seus níveis de glicose no sangue.

Inclusive, para algumas pessoas, este processo é tão poderoso todas as noites que seus níveis de açúcar no sangue pela manhã são mais elevados do que eram quando a pessoa foi dormir.

Este nível de glicose no sangue mais alto do que o normal pela manhã é chamado de Fenômeno Dawn, e é especialmente importante compreendê-lo em diabéticos do tipo 1 e do tipo 2 que dependem de insulina, já que mais insulina tem de ser injetada para neutralizar a elevação de açúcar no sangue que ocorreu durante a noite.

Resumindo, podemos concluir que não há nenhum requisito dietético para os carboidratos.

Ou seja, não existem “carboidratos essenciais” – uma vez que nosso organismo pode produzir toda glicose necessária, a partir da proteína que você come, ou do glicerol liberado quando os ácidos graxos são quebrados.

Na verdade, a maioria dos problemas causados pela síndrome metabólica tais como hipertensão arterial, açúcar no sangue elevado, desequilíbrios no colesterol e triglicérides elevados melhoram ao reduzir a quantidade de carboidratos consumidos.

Gliconeogênese E O Cortisol

Um dos mitos mais recentes em torno das dietas cetogênicas é que elas são estressantes para o corpo.

Supostamente porque o processo interno de ter que fazer glicose a partir de proteínas e glicerol causa uma liberação de cortisol (conhecido como o hormônio do “estresse”).

Este equívoco surge da constatação incorreta de que o processo de gliconeogênese (GNG) sempre requer a secreção de cortisol.

Há uma grande discussão e mais detalhes sobre este mito aqui (texto em inglês).

Os autores citam várias referências que relatam que cortisol é liberado no processo de GNG quando o açúcar no sangue fica tão baixo ao ponto de provocar uma reação hipoglicêmica.

E Peter no blog Hyperlipid menciona um estudo (texto em inglês) no qual as dietas cetogênicas melhoraram o metabolismo do cortisol.

Comentando o estudo, ele afirma “Low-Carb é a chave para melhorar o metabolismo glicocorticoide”.

Conclusão E Palavras Finais

Neste artigo, explicamos brevemente sobre a gliconeogênese.

Abordamos onde ela acontece (no fígado), quais substratos utiliza (aminoácidos, lactato e glicerol) e por que ela pode “salvar sua vida” – ao manter estável sua glicose sanguínea mesmo se você não consumir nada de carboidratos.

Lembrando que não é nem mesmo isso que defendemos: adoramos o consumo abundante de vegetais (que têm poucos carboidratos), e eles fazem parte da nossa lista de compras semanal.

Tudo o que estamos dizendo é: seu corpo tem mecanismos robustos para que você não morra, sua glicose não despenque, e seu cérebro não pare de funcionar – na ocasionalidade de você ficar sem seu arroz ou pãozinho.

Referências

Para deixar a leitura mais fluida, separamos algumas das referências citadas no texto original e também correlatas.

  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7351177 (mostra o balanço de nitrogênio (preservação da massa muscular) em dietas PSMF)

Estudos citados pelo Peter do blog Hyperlipid (que ela cita no artigo):

  1. https://academic.oup.com/jcem/article/92/11/4480/2598960\ (sobre o low-carb e metabolismo de glicocorticoides)

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/1199154 (não tem a ver exatamente com o tema, mas ele menciona pontos interessantes sobre low-carb e tireoide)