Podcast #040 – O Que A Evolução Diz Sobre Como Nos Alimentar E Nos Exercitar, Com O Treinador Carlos Salerno

Nada na Biologia faz sentido exceto à luz da evolução.”

(Theodosius Dobzhansky)

Se você se interessa por dar ao seu corpo o que ele foi feito para receber (seja em questão de treino, alimentação, ou descanso)…

Então vai adorar o podcast de hoje, com o Carlinhos Salerno.

Ele é o fundador do Método Evolutivo — que usa o pensamento evolutivo e a ciência para ajudar você a viver mais e melhor.

Escute o podcast todo para descobrir:

  • a história pessoal de como o Carlinhos engordou mesmo correndo maratonas,
  • como sua irmã o motivou a emagrecer,
  • o que o levou a criar o Método Evolutivo,
  • o que é exatamente a abordagem evolutiva,
  • como aplicar os princípios evolutivos no seu dia a dia,
  • por que você não precisa abandonar o mercado, a academia, e as modernidades,
  • por que você deveria morar num prédio sem elevadores,
  • como otimizar gasto calórico e ingestão calórica,
  • por que se preocupar com hormônios,
  • será que a corrida é importante para o ser humano?
  • por que você deveria treinar com amigos e ao ar livre,
  • por que você não está “velho demais” para se exercitar,

e muito mais.

Depois fale para o Carlinhos que você nos escutou: ele vai amar saber disso!

As maneiras mais fáceis de mandar um “oi, adorei o podcast” para ele são:

O player está aqui embaixo — e a transcrição aqui nesta mesma página.

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Transcrição Completa Do Episódio

Guilherme: Bem-vindo a mais um podcast do Senhor Tanquinho. Eu sou o Guilherme.

Roney: E eu sou o Roney. E aqui a nossa missão é deixar você no controle do seu corpo.

Guilherme: Olá, Tanquinho! Olá, Tanquinha!

Bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast.

E hoje nós contamos como convidado com o Carlos Gonçalves, o Carlinhos. Tudo bem, Carlinhos?

Carlinhos: Tudo, tudo bem. Tudo bem com vocês aí?

Uma honra estar conversando com vocês no podcast, tão famoso e divulgado.

Roney: Muito obrigado, Carlinhos.

Para quem não conhece, o Carlinhos é educador físico e criador do Método Evolutivo.

Então, Carlinhos, como nós podemos te apresentar para o pessoal que está nos escutando agora?

Carlinhos: Bom, como tu disse, eu sou formado em Educação Física pela UFRGS, eu trabalho com condicionamento físico e saúde — trabalho nesse ramo desde que entrei na faculdade, no início da década de 90 —  e também sou instrutor de mergulho.

Então eu levo as duas profissões lado a lado.

E acabei chegando nessa coisa de mudanças alimentares, de abordagem evolutiva, que é o que eu costumo passar no método evolutivo, por uma história que começou mais ou menos em 2001, quando eu voltei de um período na Europa e voltei um pouco acima do peso.

Aquela coisa de ter ido para ver o que ia acontecer, tentar a vida em outro lugar, depois acaba voltando por uma série de fatores…

E eu tenho uma irmã que se chama Patrícia.

E a Patrícia foi a pessoa que me incentivou a começar na Educação Física.

Quando eu voltei da Europa, ela disse assim para mim, me encontrou depois de um tempo sem me ver e disse assim: “Cara, não pode professor de Educação Física gordinho assim!”.

E aí eu peguei e deu uma desculpa furada assim, tipo: “Ah, mas eu bem, eu conseguindo fazer exercício, um monte de coisa”.

Mas na realidade a desculpa era que eu não queria era mudar meus hábitos assim.

Você está acostumado com uma coisa e quer manter aquilo, não quer sair da zona de conforto.

Aí passou algum tempo, eu me dei conta de que ela tinha razão — e resolvi voltar a me cuidar.

E aí fiz aquilo que tradicionalmente todo mundo faz.

Cara, principalmente na Educação Física nós estávamos dentro desse paradigma e ainda vem dentro desse paradigma há algum tempo, que é o seguinte: “Eu vou voltar a fazer mais exercício”.

Aí eu comecei a correr devagarinho, até que depois eu fui participar de provas e tudo e comecei a fazer as mudanças alimentares que todo mundo faz: aquelas recomendações gerais.

Só que aí chegou um momento, passaram alguns anos e eu: “Poxa, com tudo o que eu me esforço, tem alguma coisa errada. Eu tinha que ser mais magro”.

Os meus tempos de corrida, que é algo que eu estava envolvido naquele período, poderiam ser melhores também.

E aí coincidiu isso com o final de 2007 e começo de 2008, quando eu descobri que eu ia ter o primeiro filho, o Ernesto.

Hoje o Ernesto vai fazer dez anos e a Sofia, a mais nova, seis.

Aí eu disse: “Tá, eu vou ter que estudar isso”.

Voltar a estudar porque eu tinha ficado um tempo ainda, voltado com o mergulho.

Quando eu fui para fora do Brasil eu fiquei mais envolvido com o mergulho e não com a Educação Física.

Quando eu estive fora de Porto Alegre também eu tive a oportunidade de, com o mergulho, morar em Fernando de Noronha e outros lugares…

Guilherme: Que show!

Carlinhos: E acabei me afastando um pouco do exercício.

Aí, eu me lembrei – e isso é uma coisa que eu preciso agradecer a esse professor – quando eu estava na faculdade eu fiz parte de um grupo de pesquisa em atividades subaquáticas, que era natação para asmáticos, hidroginástica e natação equipada (que é nadar com nadadeira, máscara e snorkel).

E eu tinha um coordenador lá que é o Luiz Fernando Martins Kruel, professor da universidade ainda hoje.

E aí quando eu entrei no grupo no 3º semestre, cara, eu não sabia quase nada de inglês e aí ele disse assim para mim um dia.

Cara: tem que ler.”

E aí toda sexta a gente tinha um encontro, a gente dava aula de segunda à quinta nesse projeto lá para as pessoas da comunidade e toda sexta-feira tinha que apresentar um artigo científico.

Entregava para a galera ler, lia e na outra sexta-feira apresentava.

Aí no final da primeira semana ele me entregou um artigo e disse assim: “Sexta que vem é tu que apresenta”.

Mas eu mal lia inglês —  isso era 1992, 1993.

Aí ele olhou para mim e disse: “Te vira. Tu sabe onde fica a biblioteca, ?” e eu disse: “”.

Aí fui, cara, aí fui com dicionário, comecei a ler, aí graças a ele eu conheci o método científico.

E aí quando eu resolvi voltar a estudar eu disse: “Não, agora eu tenho que dar um jeito, tem alguma coisa errada e eu tenho que descobrir o que está acontecendo”.

Eu retomei essa coisa da ciência, de ler artigos.

E eu não lembro qual episódio de podcast de vocês, alguém de vocês comentou (Não lembrou se foi o Roney ou o Guilherme): “Quando eu morei fora, quando eu comecei a ler em inglês sobre outros assuntos, foi quando eu descobri as coisas”.

Eu não lembro qual de vocês dois comentou isso.

Guilherme: Fui eu, Guilherme. Eu morei na Holanda um ano.

Carlinhos: Isso.

E aí, cara, eu comecei a estudar, só que a minha abordagem ainda estava ligada ao exercício, sabe?

Não estava muito preocupado com a alimentação.

Porque dentro da Educação Física, como nós temos a faculdade de Nutrição, tu delega isso para outro profissional.

E aí quando tu precisa de alguma coisa, o que tu faz? Tu vai lá e pede ajuda do especialista.

Então eu continuei um pouco mais focado no lance do treinamento e como isso poderia ajudar e tentar resolver o problema de que os resultados, tanto de emagrecimento, quanto de desempenho não eram bons.

Nesse projeto aí eu resolvi, em 2010, correr a Maratona de Paris.

Aí treinei, fui lá, corri a maratona e voltei, cara, com uma dor no joelho e fascite plantar.

Aí a pessoa que trabalha comigo hoje, que é o Fábio Bao, no Método Evolutivo – ele é fisioterapeuta – um dia disse assim para mim.

“Cara, tu precisa pesar menos. Pode ser o problema aí do teu joelho, está pesando demais, alguma coisa assim”.

E nessa época eu também estava participando de várias provas, dessas corridas de rua e numa dessas provas, cara, eu encontrei uma pessoa aqui em Porto Alegre que é meio folclórica e famosa, que o nome dele é Jacaré.

O Jacaré corria de pés descalços, então chamava muita atenção de quem participava porque todo mundo comprava o tênis de R$800, um monte de coisa, e quase todo mundo corria pior que o Jacaré.

O Jacaré era melhor que quase todo mundo.

Eu conversei com ele e disse: “Cara, eu não sei, eu aprendi a correr de pé descalço, corro assim e aí foi”.

Aí o que eu fiz? Fui dar uma estudada em técnica de corrida e acabei chegando no barefoot running, na corrida de pés descalços.

Aí caiu na minha mão um artigo do Daniel Lierberman e o Denis Bramble.

Eu não sei se vocês conhecem eles. Eles estudam biomecânica, acho que é no MIT, se eu não estou enganado, e eu artigo chama Endurance running e acho que é evolution of Homo.

Guilherme: Eu ouvi falar a primeira vez deles depois que nós entrevistamos o Erik Neves aqui para o podcast. Ele falou um pouquinho de corrida descalço também.

Carlinhos: Ah tá…

Bom, aí o que aconteceu? Ele descreve toda a evolução do ser humano e a função da corrida, do quanto a corrida influenciou a nossa evolução.

E aí eu fui mudando algumas coisas em relação a isso, fui trocando gradativamente o calçado, fui fazendo uma transição adequada da corrida do tênis tradicional para o tênis minimalista e eventualmente corrida de pé descalço e essa coisa toda.

E aí isso nada mais é do que uma abordagem evolutiva para corrida.

Nesse estuda, estuda, estuda eu acabei chegando em três caras, que são o Mark Sisson, o Robb Wolf e o Jeff Volek – o Jeff Volek é o autor do low-carb para performance e para estilo de vida.

Bom, nessas pesquisas aí eu descobri assim: “, mas tem uma pessoa aqui na cidade onde eu moro que trata desse tema ‘abordagem evolutiva’ para a alimentação”, que era o caso do Souto.

Aí eu disse: “, talvez esse possa ser o caminho para eu mudar a outra parte”, que era a alimentação.

E aí eu acabei entrando em contato com ele, acabei conhecendo a Polyana, bem no início do blog aqui dele, que foi em 2011, 2013, eu acho 2014…

A gente conseguiu fazer alguns encontros aqui em Porto Alegre, a gente fez aqui com alguns amigos uma vez – porque eu sou sócio de um clube que se chama Sogipa – um evento que se chamou “Churras sem Pão”. Era um churrasco sem pão.

E aí eu entrei em contato com toda essa informação sobre a abordagem evolutiva para a alimentação e aí foi quando realmente as coisas mudaram, , cara? Aí o meu peso realmente diminuiu, a minha performance melhorou bastante.

Quando eu voltei da Europa em 2001 eu tinha 31 anos, 30 anos.

Aí já se passaram quase 18 anos. Esse ano, no mês que vem, eu faço 47 anos.

Eu estou mais leve, mais magro, mais rápido e mais forte do que eu era com 30 anos.

E teoricamente, pelo que nós estamos acostumados, era para ter acontecido o contrário.

Guilherme: É o que costuma acontecer…

Carlinhos: As pessoas engordam, engordam, ficam mais lentas, mais fracas e não foi o que aconteceu comigo.

E aí eu me lembro de uma coisa que num desses encontros o Souto disse para mim, que foi assim.

“Cara, não acredita em mim. Lê o que eu leio e tira as tuas conclusões.”

E aí foi que eu me dediquei com mais afinco, então, a estudar ainda mais tudo o que envolvia exercício e tudo.

Aí eu comecei um blog em 2013, que se chamava Carlinhos Treinamento.

E ali eu escrevia várias coisas e já trabalhava nesse lugar que eu disse que eu trabalho hoje, que é uma clínica, com um amigo que é fisioterapeuta.

E aí um dia esse meu amigo falou: “Cara, eu trato meus pacientes, mas eles continuam acima do peso, o colesterol deles é um problema”.

Aquela coisa toda e eu digo: “Cara, eu acho que eu tenho a solução: quem sabe a gente começa a passar informações para eles além do exercício ou do tratamento, que é o que nós fazemos aqui na clínica”.

E aí nós começamos a passar informações que eu trazia lá do que eu estudava e desse meu blog e todas que vocês conhecem aí, que vocês divulgam.

E aí essa coisa toda levou ao que nós chamamos de Método Evolutivo.

Em 2016 nós colocamos no ar o site que do Método Evolutivo e o blog do Método Evolutivo e no começo desse ano nós começamos a gravar coisas para o YouTube, colocar mais coisas no Facebook e no Instagram e aí surgiu o Método Evolutivo.

A história rapidinha é assim.

Guilherme: Excelente! Excelente!

Faz bastante sentido como uma jornada pessoal, que levou você a querer desenvolver isso.

E quais são os pilares do Método Evolutivo? O que é o Método Evolutivo, exatamente?

Carlinhos: Bom, isso era algo que no começo nós também tínhamos alguma dúvida, mas nós podemos dizer assim, que de forma geral, o Método Evolutivo são recomendações e orientações para as pessoas, que consideram três pilares: atividade física e exercício, alimentação e o repouso.

Esses três pilares são fundamentados em duas coisas importantes: em uma abordagem evolutiva para tudo isso, que é o ponto de partida.

E, para saber se essas recomendações e orientações são as mais prudentes ou as melhores, a gente tenta justificá-las com a Ciência baseada em evidência.

Então hoje, o que nós temos no Método Evolutivo são as informações e recomendações que estão no site, as informações e recomendações que nós passamos nos vídeos e no que nós passamos para os nossos alunos no dia-a-dia.

Ou seja, é a abordagem evolutiva para o condicionamento físico e a saúde.

E agora nós estamos criando, tentando desenvolver um produto, vamos dizer assim, eletrônico do Método Evolutivo, mas ele ainda está na formação e espero que em algum tempo ele esteja no ar aí para mais pessoas poderem desfrutar dessas informações que nós achamos bastante pertinentes.

Guilherme: Ah, show de bola!

Carlinhos: De forma resumida, é isso!

Guilherme: Quando estiver pronto, avisa a gente, que a gente ajuda a divulgar.

Por que o pensamento evolutivo é tão importante para fundamentar isso?

Você mencionou a Ciência e o pensamento evolutivo.

Que a Ciência é importante, meio que todo mundo já sabe e entende intuitivamente.

Agora por que é interessante a gente pensar nas coisas à luz da evolução?

Você pode explicar um pouquinho para quem não está familiarizado com esse conceito?

Carlinhos: Eu não vou lembrar o nome do autor agora, mas tu usou a frase e eu vou só reformular:

Nada na Biologia faz sentido exceto à luz da evolução.”

(Theodosius Dobzhansky)

A gente aplica, vocês, principalmente, no que diz respeito à alimentação, a gente faz a mesma coisa, tenta passar para as pessoas toda a importância da comida de verdade, da eficiência da restrição de carboidratos para o emagrecimento, para o tratamento de algumas patologias, e assim vai.

Então quando nós fazemos… se nós usamos esse critério para determinar como nós devemos nos alimentar, a pergunta é.

“Por que não usar esse critério para determinar como a gente deve se exercitar?”

Esse foi o ponto de partida da abordagem evolutiva para o exercício.

Por que o que acontece?

Nós sabemos que foi tudo o que nós fizemos na nossa evolução que moldou o que nós somos hoje. Então o que acontecia?

Nós, na realidade, fazíamos exercício para poder comer.

O nosso exercício qual era?

O nosso exercício era caçar ou coletar o alimento ou ir atrás do alimento da forma que fosse a mais pertinente do período.

E depois de nos exercitarmos ou de caçarmos, nós vínhamos comer e descansar.

E é justamente o desacordo disso, do que acontecia naquela época, com o que nós temos hoje, que em saúde eles chamam de Teoria da Incompatibilidade, que traz os grandes males que nós temos hoje. Ok?

Bom, se essa Teoria da Incompatibilidade é usada na saúde de forma geral no que diz respeito à questão hospitalar e outras, por que ela não pode ser usada também para o exercício? Essa é a ideia.

Então o que nós prezamos? Nós prezamos que nós precisamos dar aos nossos genes, aquilo que eles esperam.

O que eles esperam? Eles esperam que nós nos exercitemos para buscar o alimento, que esse alimento seja composto de comida de verdade e que nós demos ao nosso organismo, descanso. Ok?

Guilherme: Perfeito.

Carlinhos: Bom, e aí então, no que diz respeito ao exercício, nós tentamos aplicar o que, teoricamente, acontecia com os nossos ancestrais no que é possível fazer na nossa vida cotidiana.

Porque uma coisa que eu costumo dizer aos meus alunos é que o fato de eu usar a evolução como base não significa: “Olha, ninguém mais vai ao supermercado, a gente só pode comer o que a gente conseguir caçar, ninguém mais faz exercício em academia ou em lugares especializados, só vale fazer exercício na floresta, subindo árvore, descendo árvore”. Não é isso.

O que eu estou dizendo é que nós temos que pegar essa matriz evolutiva e colocar dentro da nossa vida hoje.

Porque, bem ou mal, toda a tecnologia e tudo o que essa roda do desenvolvimento girou até hoje não vai voltar atrás.

Então o que nós temos que fazer é transformar o nosso dia-a-dia o mais parecido possível com o que era o estilo de vida do nosso ancestral sem, obviamente, mudar de forma radical o que nós temos hoje.

É isso.

Roney: Perfeito, que legal!

O pessoal que segue o seu Método Evolutivo ou mesmo você, quando começou, quais são as maiores dúvidas e erros que você vê na prática?

Carlinhos: Que eu vejo na prática?

Bom, é o seguinte, cara, eu acho que o primeiro erro que eu acredito que a gente cometa, que as pessoas cometem é isso que eu te disse agora.

É imaginar que a ideia do Método Evolutivo é mudar drasticamente o que eles fazem. Não, não é isso.

É organizar a vida das pessoas para que ela seja a mais parecida possível com aquilo com que os nossos ancestrais faziam.

Então, por exemplo, algo que vocês recomendam: tem um vídeo de vocês em que vocês estão sentados em uma mesa e mostram os alimentos que vocês compraram em uma semana.

Não sei se vocês lembram disso, provavelmente lembram, ?

A carne moída, aí vocês mostram… ou seja, o que vocês estão fazendo ali?

Vocês estão simplesmente pegando o que vocês têm hoje, que é a feira, o mercado, o açougue e quando vocês vão lá vocês escolhem o que é comida de verdade, que era os nossos ancestrais comiam enquanto nós evoluímos. Ok? A mesma coisa a gente faz com o exercício.

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Então esse é o erro primário: achar que precisa mudar demais a vida. Não precisa.

O que vocês mostram para as pessoas nesse vídeo da comida?

Que vocês compram, como todo mundo! Só que vocês escolheram comprar algumas coisas em detrimento de outras.

A mesma coisa no Método Evolutivo: nós vamos fazer algumas coisas para deixar de fazer outras, certo?

Então esse é o primeiro erro: acreditar que agora nós vamos ter que fazer coisas muito diferentes.

Roney: Certo.

Carlinhos: Bom, o segundo, às vezes, é não entender o que eu chamo de Paradigma do Método Evolutivo, ou do objetivo. O objetivo é saúde e condicionamento físico.

Às vezes quando as pessoas me perguntam: “Por que tu mudou, Carlinhos?”, eu digo assim: “Cara, o principal objetivo foi que chegou o dia, quando eu descobri que ia ser pai, que eu decidi o seguinte: eu quero ver os meus netos grandes”.

Então o meu objetivo é saúde, condicionamento físico, viver o máximo que eu puder, o melhor que eu puder.

Então quando as pessoas entendem que o paradigma é esse, dá para entender algumas coisas que eu vou colocar para vocês como outros erros.

No que diz respeito ao exercício o erro mais comum é esquecer o fato de que o ser humano é generalista.

Porque o ser humano é capaz de correr, de nadar, de pular, de se pendurar, de rolar, de engatinhar… de fazer várias coisas.

Em alguns momentos nós esquecemos disso e aí nós acabamos nos focando naquele paradigma do exercício que vem evoluindo com o passar do tempo, que é o exercício na academia, o exercício feito sempre em uma máquina em que ela é conduzida, o exercício sempre quadradinho em que o professor diz para o aluno: “Agora tu vai fazer um agachamento e aí tu vai deixar o teu pé assim, teu joelho flexiona até um jeito, até o outro”.

Esse paradigma é normal porque a Ciência do Exercício evoluiu dentro das atividades que eram possíveis de serem estudadas, as mais fáceis, por exemplo: qual é a atividade mais estudada na Fisiologia do Exercício? Corrida!

Por quê? Por que é mais fácil de medir: tu bota o cara na esteira e tu mede um milhão de parâmetros da pessoa ali, entendeu? Frequência cardíaca… um milhão de coisas.

Mas o ser humano não é só isso. Então nós, lembrando disso, damos importância para outros exercícios.

Em hipótese alguma eu estou dizendo que fazer exercício de força ou musculação é um problema. Não é isso.

O que eu estou dizendo é que nós somos capazes de fazer mais coisas, entendeu?

Então, não usar só exercícios isolados, não se focar só em movimentos padronizados.

Às vezes eu digo para os meus alunos assim, só para vocês terem uma ideia, esses dias eu disse: “Hoje eu não vou dar exercício. Eu vou dar tarefa”.

Aí eles abrem o olho grande assim e ficam me olhando: “Como assim?”.

A tarefa é a seguinte: em três minutos vocês têm que ser capazes de deitar no chão e levantar o maior número de vezes possível. “Cara, como é que eu faço isso?”, “Não sei! Eu vou te dar a tarefa e tu faz”. Ou seja, nem sempre o exercício precisa ser tão regular.

Então, esse tipo de coisa… nos meus treinamentos eu, particularmente, já fiz aula de capoeira, eu já fiz um tempo de crossfit, eu faço… as pessoas às vezes me acham meio louco.

Às vezes eu vou para a pracinha e meu treinamento é caminhar e ficar subindo e descendo de muro, subindo e descendo de árvore porque são movimentos importantes que nem sempre precisam ser bem organizados.

Então, lembrar que o ser humano é generalista.

Nós conseguimos fazer muito mais coisa do que só musculação e corrida.

Roney: Sem dúvida!

Carlinhos: E não significa que as pessoas tenham que ficar subindo em árvore. Não foi isso que eu disse. Mas elas podem fazer, caso elas queiram!

E quer ver o que para mim é fundamental e ajuda muito? Cara, a minha filha adora subir em árvore! E aí eu consigo fazer exercício ao mesmo tempo em que brinco com a Sofia.

Meu filho adora brincar de parkour, claro que de forma mais simples. Não estou falando de parkour acrobático. Mas aí sobe num muro, pula muro, vai no clube, brinca…

Ao mesmo tempo em que eu estou brincando, eu estou me exercitando também.

O segundo erro, para mim, que é importante, é as pessoas pensarem só em exercício e esquecer movimento.

Tem um livro, agora eu não sei o nome da autora, mas chama Move Your DNA, ou seja, Mova o seu DNA.

Nesse livro essa pessoa explica que às vezes não adianta a gente fazer só exercício. A gente precisa se movimentar.

E nós acabamos dando pouca importância para o que eu chamo de atividade física incidental, que é assim, por exemplo, quando nós vamos na feira, vamos a pé e carregamos as compras de volta, em vez de ir de carro.  Quando possível, usamos a escada e não o elevador.

Eu até brinco com os meus alunos… vocês são de qual cidade mesmo?

Guilherme: Nós somos de São Paulo originalmente.

Carlinhos: São Paulo.

Hoje em dia se nós formos tentar vender um apartamento, o que as pessoas sempre perguntam? “Ai, tem que ter elevador!”.

Apartamento sem elevador não tem o menor valor.

Eu já brinco com as pessoas: comprem um apartamento bem no alto e com elevador, mas usem a escada.

Guilherme: Isso é uma conversa bacana que nós tivemos também com o Balu, o Danilo Balu, que nós já conversamos aqui no…

Carlinhos: Conheço! Do blog Recorrido, ?

Guilherme: Isso!

Nós conversamos com ele no podcast e antes de nós começarmos a gravar, nós estávamos falando sobre isso.

Nós morávamos na época em Sorocaba, no interior de São Paulo, em um apartamento no terceiro andar, sem elevador, só com escada.

E ele era mais barato do que os apartamentos mais baixos porque não tinha elevador.

Mas nós éramos obrigados, por isso, a fazer justamente esses exercícios, esses Loaded Carries indo para feira, para o mercado, carregando peso, subindo escada.

E é bom ter, justamente, essas atividades.

Você, na verdade, está deixando de gastar dinheiro (ao economizar o aluguel), ao mesmo tempo em que você está sendo mais saudável, então é um ganha-ganha.

Embora a princípio não pareça porque é um pouco desconfortável.

Carlinhos: Sim.

Tem um trabalho de 2012, onde eles pegaram e fizeram o seguinte: eles aplicaram um treinamento – treinamento de corrida – em pessoas na faixa dos 30 anos e mediram quantas pessoas melhoraram.

E ao mesmo tempo eles mediram o quanto essas pessoas faziam de atividade física incidental. E eles classificaram essa atividade física incidental em leve, moderada, alta e muito alta.

O que eles perceberam? Eles perceberam que aquelas pessoas que mais melhoraram o seu VO2, que é a capacidade aeróbica, foram também aquelas que tinham um maior nível de atividade incidental leve.

É mais ou menos a mesma coisa assim: se tu participa de um grupo de corrida, é como se tu tivesse aquela pessoa que vai para a pista treinar e sempre vai de carro e volta, vai melhorar menos do que aquela que vai caminhando.

E às vezes a gente não dá importância para essa atividade. A gente acha que essa atividade não conta, mas na realidade ela conta e muito.

Se nós formos imaginar, se estima aí que o nosso ancestral caçador/coletor caminhava 14 quilômetros por dia.

Guilherme: Sim, sim.

E mesmo na questão do emagrecimento, essa atividade que não é exercício propriamente dito, a termogênese da atividade física que não é exercício, o NEAT, nos estudos ele faz uma parte muito grande do gasto calórico diário das pessoas muito maior do que, às vezes, o exercício orientado.

Carlinhos: Aí a gente até vai cair num ponto interessante.

Eu lembro que naquele podcast que vocês fizeram com o rapaz lá que é fisiculturista – o Caio Bottura – eu lembro que teve uma hora que vocês conversam sobre a dieta flexível e aí ele diz assim: “Ah, mas o importante é a quantidade do balanço energético” e algo assim.

Claro, vamos imaginar o seguinte: algumas pessoas acreditam que o importante é a mudança hormonal gerada pelo tipo de caloria que tu ingere, certo?

Outros acreditam que talvez o mais importante para emagrecer ou ganhar massa muscular seja o balanço energético, ok?

Mas aí eu sempre faço a seguinte pergunta: quem sabe a gente usa o melhor dos dois mundos?

Guilherme: Com certeza! É isso que a gente acredita também.

Carlinhos: Nós comemos comida de verdade para buscar o acerto da mudança hormonal e, se por um acaso, gastar mais calorias vai nos ajudar um pouco, nós também gastamos!

Porque gastar mais calorias, mesmo que não seja importante para o exercício, pode nos trazer outros benefícios que estão ligados à questão mecânica.

E é o que eu costumo brincar: vocês, por um acaso… vocês não têm filhos, ? Nenhum dos dois?

Guilherme: Não, não, ainda não.

Roney: Não.

Carlinhos: Por exemplo, quem tem filho já assistiu um monte de desenho, ? E se vocês puderem um dia, assistam o início daquele desenho Os Croods, que é uma família da época das cavernas.

No início do desenho eles vão atrás de um ovo de um pássaro maluco lá. Aquele início de desenho é uma correria o início do desenho. Ele mostra exatamente a relação entre gasto calórico e ingestão calórica.

Pode até ser que a questão hormonal seja mais importante, pode até ser que o gasto calórico, o balanço energético seja o mais importante, mas no final das contas talvez isso não faça a menor diferença.

Sabe por quê? Porque o que nos fez evoluir foi: gaste calorias para poder ingerir calorias.

Guilherme: Sim! É completamente verdade.

Carlinhos: E hoje nós não fazemos mais isso. A comida está no supermercado. É só entrar lá e comprar.

Guilherme: E têm vários fatores… é uma questão multifatorial mesmo da obesidade porque nós temos acesso a comidas que estimulam o nosso paladar muito mais do que o bicho e a planta que nós tínhamos acesso antigamente.

Nós temos uma variedade muito grande e a variedade grande também estimula em excesso. Nós temos oferta o tempo todo.

Então é muita, muita coisa envolvida que nos faz gastar menos energia e querermos ingerir mais, seja a energia a questão principal, seja qualidade do alimento – o fato de ser mais processado ou menos processado –, sejam os macronutrientes… tudo isso está dentro do mesmo pacote. É impossível isolar uma causa só.

Carlinhos: Dentro desse erro que tu tinha me perguntado, do movimento, nós prestamos muita atenção em exercícios e nos esquecemos do movimento.

Para finalizar eu queria lembrar algumas coisas, assim, por exemplo, as pessoas dão pouco valor para a importância de tentar ficar menos sentado no dia-a-dia.

Por exemplo, uma série de trabalhos mostram que às vezes o risco, a mortalidade final, todas as causas, é muito parecida com aquelas pessoas que são sedentárias ou se exercitam duas, três vezes por dia e ficam um número de horas grande do dia sentadas.

Eu, graças a Deus, nas minhas duas profissões eu tenho a possibilidade… por exemplo, eu dou aula de hora em hora durante a manhã, , períodos da tarde.

Então eu tenho a possibilidade de, em algum momento eu estou de pé orientando um aluno e daqui a pouco eu estou sentado no chão orientando um aluno, daqui a pouco eu aproveito e fico num pé só orientando um aluno; ou seja, eu tento ficar o menos possível parado dentro da minha rotina do dia-a-dia.

Claro que eu sei que para quem trabalha em escritório às vezes fica meio estranho.

De repente teu chefe entra e tu está num pé só dentro da sala. Mas de repente só ficar menos sentado, sair para caminhar…

Hoje com o recurso do telefone tu pode conversar com alguém com um fone de ouvido enquanto caminha pela escada do prédio.

Outra coisa que eu costumo fazer… eu estou num momento novo da minha vida, estou fazendo uma transição, estou morando num apartamento novo agora e aí eu adotei um estilo minimalista, então, por exemplo, eu não tenho mais cadeira.

Eu tenho um banco e quase todos os lugares de sentar são no chão. Isso me obriga a sentar e levantar várias vezes no dia.

Eu não fico mais sentado só na cadeira. Então eu estou tentando fazer com que o dia-a-dia seja mais movimentado, ou seja, eu estou tentando prestar atenção mais no movimento. E acho que essa é uma falha que as pessoas cometem.

Mas deixa eu te dar outros erros e outras dúvidas… então eu já falei para ti da desvalorização das atividades incidentais, das moderadas, a gente conversou… outro erro que as pessoas cometem muito é dar muita atenção só ao exercício e esquecer que, na realidade, nós melhoramos no descanso.

Existem vários trabalhos descrevendo como seriam as atividades do nosso ancestral baseados no que as comunidades primitivas modernas, atuais, fazem.

Ficou meio estranho esse termo, ? Comunidade primitiva moderna, mas fica melhor atuais.

Por exemplo, nós temos relatos aí do Loren Cordain, onde ele descreve algumas tribos ali da Amazônia ou do Paraguai e da região ali; em que, por exemplo, quando eles se alimentam da carne de macaco.

Então quando eles saíam, eles ficavam horas caminhando e quando eles encontravam a presa, eles tinham vários momentos de atividades intensas e muito curtas.

Deve ser muito difícil pegar um macaco mesmo porque ele é muito mais ágil que a gente e qualquer chimpanzé é mais forte que nós.

Então era muito difícil pegar.

E o que ele percebia? Que depois de um dia muito intenso de caça, no outro dia, essas tribos descansavam.

E o que nós costumamos fazer, às vezes? As pessoas ficam tão fissuradas em fazer só exercício, que é um dia após o outro de dias difíceis.

Quando na realidade o que nós precisamos, do ponto de vista evolutivo, é intercalar dias fáceis com dias difíceis. Não fazer só dias difíceis e esquecer os dias fáceis.

Esse é outro erro comum que as pessoas costumam cometer também.

Vocês querem comentar alguma coisa sobre isso, me fazer alguma pergunta? Senão eu pulo para o meu próximo erro comum.

Roney: A gente queria justamente saber qual é a filosofia do Método Evolutivo aplicada à questão do descanso.

Mas eu acho que você cobriu, que era esse mesmo o tópico de que as pessoas têm que valorizar também o descanso, tanto quanto as atividades físicas.

Carlinhos: O esforço…

O que a gente tenta passar também para as pessoas são informações sobre o sono, ?

Da importância do número X de horas; da qualidade desse sono; tentar, sempre que possível, dormir de seis a oito horas; tentar deitar antes das 10h, 11h da noite.

Porque não adianta, dormir de dia não é a mesma coisa que dormir de noite.

Vocês provavelmente devem conhecer aquele autor o Bill Lakalos…

Guilherme: Lagakos, acho que é…

Carlinhos: Lagakos! É meio difícil de pronunciar o nome dele, ?

Mas o que acontece?

Ele tem uma linha que é da combinação tanto do exercício quanto da alimentação com o ciclo circadiano.

Então têm vários trabalhos em que ele fala da ideia de comer não muito tarde, todas aquelas questões também ligadas à exposição à luz azul depois que escurece…

Essas informações nós também passamos para os alunos como fazendo parte do repouso, porque na realidade nós melhoramos mesmo enquanto dormimos.

A função do sono é restaurar o nosso organismo e essas coisas assim.

Outra coisa que eu costumo falar para os alunos é o seguinte… isso que eu vou dizer às vezes pode até, algumas pessoas, interpretarem um pouco erradamente o que eu vou dizer, mas o que eu quero dizer é o seguinte.

Do ponto de vista evolutivo e do ponto de vista do condicionamento físico e da saúde, ninguém precisa ser maratonista ou fisiculturista.

Nós não precisamos ser capaz de correr grandes distâncias e nem precisamos ter quantidades muito grandes de massa muscular para sermos uma pessoa saudável e magra.

Agora, em hipótese alguma isso significa que ser maratonista ou ser fisiculturista seja um problema.

Mas, no paradigma evolutivo, isso não faz muito sentido porque não sei se vocês já leram o livro “Nascido para Correr”.

Guilherme: Não li. Já ouvi falar muito bem, mas não li.

Carlinhos: Tem uma passagem do livro em que ele cita um antropólogo e ele diz assim, que ele acredita que teve um momento em que é possível que tenha existido subespécies aí do Homo sapiens que seria… como é que ele chamou? Homo running, alguma coisa assim.

E nós teríamos um momento em que nós convivemos com espécies, com hominídeos que seriam mais fortes e maiores do que o Homo sapiens naquele momento.

Só que como eles eram menos ágeis e menos adaptados ao ambiente, essas espécies vieram a se extinguir e nós prosperamos e estamos aqui até hoje.

Então, isso significa que a saúde não está necessariamente ligada ao grande desempenho esportivo, seja do ponto de vista do endurance, ou seja do ponto de vista da massa muscular e da força.

Eu costumo dizer isso para as pessoas porque às vezes as pessoas quando eu comento: “A gente precisa fazer trabalho de força”, eu sempre escuto uma frase, que é assim: “Ah, eu não quero ficar musculosa” ou “Eu não quero ficar bombadão”.

Tu não precisa disso! Tu pode ficar, se tu quiser? Pode! Mas tu não precisa disso para ser saudável.

Como eu comento para as pessoas que ela têm que se dedicar duas horas, pelo menos, por semana das atividades aeróbicas de intensidade moderada e baixa e da atividade incidental, às vezes eu escuto: “, agora eu vou ter que virar maratonista?”. Não, não é isso. Mas correr faz parte do ser humano.

Tu precisa correr grandes distâncias? Não. Mas ser capaz de correr mostra, sim, que tu tem um grau de saúde que, provavelmente, é compatível com mais longevidade porque nós evoluímos correndo. Isso é inegável, como nós também evoluímos fazendo força.

Então nós precisamos da combinação dessas coisas aí.

Se vocês deixarem eu vou ter mais erros para falar aí e posso falar muito mais coisas. Não sei se vocês querem fazer alguma pergunta, ou eu posso tocar falando aqui…

Roney: Acho que você pode apresentar, então, o que seria o próximo erro.

Carlinhos: Então .

Bom, esse outro erro que eu ia comentar tem a ver às vezes com organização do treinamento. Acho que é o último que eu queria comentar.

Do ponto de vista evolutivo o que nós precisamos é tentar, quando criamos um programa de treinamento, variar o máximo possível os esforços e os movimentos que nós fazíamos.

Então quando nós falamos de treinamento evolutivo eu tento usar com as pessoas, por exemplo, essa recomendação de cerca de duas horas, pelo menos, de atividades aeróbicas de intensidade moderada ou leve.

Nelas, eu incluo a caminhada que tu faz para fazer exercício, por exemplo.

A pessoa sai de casa: “Ah, vou fazer uma caminhada como exercício”. Como também incluo aquela para ir na feira, aquela para ir até o correio ou para levar as crianças na escola. Todas essas atividades incluem.

Eu costumo dizer para as pessoas que a gente vai incluir exercícios que envolvam correr – algumas pessoas têm algumas restrições quanto a isso – mas é importante que a gente não deixe de correr.

O erro que às vezes as pessoas cometem quando correm é esquecer que a gente evoluiu correndo superfícies naturais, como grama, areia, superfícies irregulares.

E hoje a gente procura correr sempre no mais lisinho, ou caminhar naquele que é mais plano, com risco de torcer o pé.

Eu me lembro até que numa sequência de postagens do Balu, quando ele esteve correndo na Etiópia, acho que foi, ou no Quênia – eu não me lembro agora – ele comenta que o queniano foge do asfalto como o diabo foge da cruz porque ele comenta um dia que ele vai treinar com um grupo e aí ele estranha porque eles não vão muito longe do lugar de treino e eles iam de carro ao invés de ir caminhando ou troteando.

E aí ele explica que e o etíope ou o queniano, eu não me lembro agora qual é o país, foge do asfalto.

Então as pessoas têm medo de caminhar em lugares irregulares, mas nós precisamos treinar o nosso organismo, a questão biomecânica de caminhar nas calçadas.

Outro erro comum é quando as pessoas se focam, dentro desse erro dos movimentos e tipos de esforços: “Ah, agora eu só vou correr para prova longa”.

Aí as pessoas esquecem da importância dos exercícios intervalados de alta intensidade, que na terminologia em inglês hoje é bem famoso, que são os HIITs, ?

E esquecem também da importância dos exercícios de força.

Outra coisa que eu recomendo, que eu acho um erro, é treinar só em ambiente fechado.

A gente tem que tentar, em algum momento, fazer atividades ao ar livre. Isso tem a ver com a exposição à luz do dia, que vai nos favorecer a ter uma noite melhor; tem a ver com as questões ligadas à vitamina D pela exposição ao sol.

E outra coisa que, evolutivamente a gente fazia, era treinar com os amigos, não treinar sozinho. Isso eu acho bastante importante e é um erro que às vezes as pessoas cometem.

Elas acabam treinando muito sozinhas em algumas circunstâncias.

Eu sempre uso como exemplo disso um negócio que o tipo de caça que ainda se faz na África hoje, no Kalahari, que é caçada persistente, onde cinco, seis pessoas de uma tribo saem para caçar um animal, que se nós fôssemos tentar pegá-lo correndo, nunca pegaríamos, apesar de sermos os mamíferos mais resistentes do planeta, nós somos, com certeza, os mais lentos.

Então nessa caçada um grupo de pessoas que mantém o animal se movimentando durante horas e isso é impossível de fazer sozinho.

Então o treinar com os amigos também é legal. Às vezes as pessoas esquecem um pouco disso. Não sei se vocês já perceberam, às vezes a pessoa chega na academia, chega, bota seu fonezinho, treina curtindo a sua música e praticamente não conversa com ninguém.

Claro que isso é uma questão pessoal de cada um, mas eu, particularmente, gosto muito de treinar com os amigos e lá no nosso trabalho nós somos em dois fisioterapeutas e quatro professores de Educação Física. Nós instituímos que terças e quintas ao meio-dia é o dia que todo mundo treina junto.

Então é muito legal porque nós falamos um monte de besteira, temos um monte de ideias, que é uma coisa importante.

Guilherme: Que bacana!

Carlinhos: Em relação ao exercício: outro erro pecaminoso é que as pessoas esquecem que a segurança do exercício está diretamente ligada a quanto elas pesam.

Eu costumo dizer que não existe exercício errado.

Existe o aluno errado para aquele exercício. Então nesse caso o trabalho que vocês frisam, e muitas vezes – até recentemente eu li o texto de vocês sobre o mito ou a lenda da madeira verde.

Guilherme: A falácia da madeira verde.

Carlinhos: A falácia da madeira verde!

Em que vocês em uma das frases você cita: “Ah, a gente gosta mesmo dessa coisa prática”.

Guilherme: Sim, sim.

Carlinhos: Nesse caso, o trabalho de vocês ligado à comida que é prático: “Ah, como é que eu boto isso no prato? Como é que eu monto e como?”, é muito importante porque é só com a alimentação que nós vamos conseguir efetivamente controlar o peso.

E pessoas que estiverem dentro do peso, com pouquíssimas exceções, não tem proibições de exercícios.

Às vezes quando eu digo para um aluno: “Hoje eu vou te ensinar a fazer – aqui no Rio Grande do Sul nós chamamos de finca pé o famoso burpee”. Aí alguns ficam: “Quê? Eu vou fazer burpee?”, eu digo: “Vai”.

Aí a pessoa fica nervosa e eu digo: “Eu vou te explicar: ele é um exercício intenso? É, mas têm etapas para chegar nele, o teu peso está certinho para fazer, não vai ter problema”.

Então manter o peso vai diminuir muito o risco de qualquer movimento. Então às vezes o erro é a pessoa tentar fazer tipos de movimentos que são mais complexos e o peso pode atrapalhar e, sim, aumentar o risco de lesão. Nesse caso, a alimentação é fundamental.

E para finalizar, o erro que eu acho que muitas pessoas cometem é achar que ou são muito novas, ou são muito velhas para fazerem exercícios.

Eu tenho alunos da faixa que começam ali nos 20 anos e tenho alunos com 80 e poucos.

Então, obviamente, nós temos que adaptar para diferentes faixas etárias e diferentes problemas que as pessoas mais idosas venham a ter.

Porque o que acontece hoje? A gente… eu uso uma expressão que chama “zoológico humano”.

A gente acaba se colocando em um estilo de vida que é, em ambiente fechado, sedentário e isso, obviamente, vai gerar repercussões futuras do ponto de vista fisiológico.

E da alimentação nós temos a Resistência à Insulina, Diabetes e assim vai, que elas precisam de tempo para acontecer.

E algumas questões mecânicas também. Elas precisam dessa exposição a essa incompatibilidade do nosso estilo de vida para levar as pessoas a terem problema no joelho, coisas assim…

Então, independente da idade as pessoas precisam fazer exercício.

Mas obviamente nós vamos ter que adaptar para cada faixa etária.

Roney: Com certeza. Exercício dificilmente vai fazer mal, a não ser que você esteja fazendo o exercício errado para você, como você bem citou anteriormente.

E, Carlinhos, qual é a mensagem final que você quer deixar para o pessoal que está nos escutando e que nos escutou até aqui?

Carlinhos: Bom, cara, eu posso dizer que a mensagem final é a seguinte.

Obviamente, quando nós tentamos passar para as pessoas uma filosofia ou o que está por trás de uma metodologia, nós estamos tentando passar para as pessoas aquilo em que nós acreditamos ser o melhor para aquele objetivo.

Obviamente eu costumo dizer que existe mais de uma maneira de fazer a mesma coisa certa – uso isso tanto na Educação Física quanto na minha outra atividade que é o mergulho – mas que o importante é que as pessoas sempre compreendam qual o paradigma fica por trás daquilo que a pessoa está tentando passar.

Porque às vezes as pessoas confundem: “, tu me deu uma informação que parece contraditória em relação àquela outra que o fulano falou”.

Isso às vezes acontece pelo paradigma porque às vezes o paradigma da pessoa que está passando a informação é o paradigma que busca a saúde através do ganho da massa muscular e da mudança estética.

Às vezes o paradigma da pessoa é o paradigma que busca saúde ou os objetivos que ela têm através dos programas de corrida que tenham uma fundamentação.

O paradigma do Método Evolutivo é a saúde, o condicionamento físico, de forma que seja o mais compatível possível com aquilo que os nossos genes esperam. E às vezes as pessoas têm um pouquinho de dificuldade de entender isso porque sempre fica o paradigma mais atual sobre as pessoas, ?

Então o bom é fazer a musculação, como nos anos 70 e 80 o boom era o jogging com o Stevie Cooper e a Jane Fonda na televisão.

Então às vezes o paradigma que a pessoa conhece é só esse.

Então a mensagem final é que o Método Evolutivo tem a ideia de passar aquilo que é o mais compatível possível com a nossa evolução e que, em alguns momentos, vai parecer que nós estamos passando uma informação meio maluca, mas que a nossa intenção é sempre acertar o máximo possível.

E nós achamos que não dá para acertar sem ter abordagem evolutiva e sem estar baseada em Ciência baseada em evidências.

Ficou um pouco redundante, mas é isso que eu queria dizer.

Roney: Perfeito, Carlinhos, ótima mensagem!

E também aproveita para deixar as suas mídias sociais, o seu site e onde mais as pessoas puderem saber mais sobre o Carlinhos e sobre o Método Evolutivo também.

Carlinhos: Bom, o nosso site é www.metodoevolutivo.com lá nós temos um blog onde eu costumo colocar uma, duas postagens por mês sobre esses temas todos.

Nós temos também o Instagram do Método Evolutivo. É @metodoevolutivo. E o Método Evolutivo no Facebook.

E eu tenho o meu Instagram também que é Carlinhos Salerno Gonçalves, que é o meu nome. E o Facebook que do Carlinhos.

Então nessas mídias todas, se as pessoas quiserem me mandar alguma sugestão, alguma pergunta, eu vou ficar bastante feliz em responder e poder ajudar.

Guilherme: Show de bola, Carlinhos!

Obrigado pela entrevista, muito obrigado pelo seu tempo, pela paciência e a boa vontade de compartilhar essas informações com quem precisa.

Porque nós sabemos que, justamente, têm muitos paradigmas sendo propagados e, na nossa opinião, essa da evolução tanto no treinamento, quanto na alimentação, quanto também no descanso, é um dos mais importantes para nós familiarizarmos as pessoas e conseguirmos combater essa crise de obesidade, realmente, que está assolando cada vez mais gente.

É uma das abordagens que, a nosso ver, mais tem a beneficiar um grande número de pessoas, então, obrigado por fazer parte desse movimento.

Carlinhos: Ah, eu agradeço também a oportunidade.

E vou te dizer que quando nós temos a oportunidade de falar para as pessoas que têm uma abordagem semelhante à da gente, isso é praticamente uma obrigação, ?

Porque é a forma que nós vamos conseguir passar as nossas ideias à frente, ainda mais para um público como o de vocês, que eu sei que é bastante grande.

Eu que agradeço aí a oportunidade.

Roney: Muito obrigado, Carlinhos.

E a gente também queria aproveitar para agradecer quem nos ouviu até aqui.

E se você gostou dessa entrevista com o Carlinhos, então deixe a sua avaliação lá no iTunes, que é muito importante para nós e, também, o seu comentário.

Guilherme: Então é isso aí.

Obrigado novamente, Carlinhos, um abração.

E para todo mundo que ouviu a gente até aqui, a gente se fala na próxima segunda-feira. Tem podcast novo toda segunda-feira.

Roney: Um forte abraço

Guilherme e Roney: Do Senhor Tanquinho.

Guilherme: Você acabou de ouvir mais um episódio do podcast do Senhor Tanquinho.

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