A Dieta Cetogênica Faz Mal Para A Tireoide?

Tradução, adaptação e finalização por Guilherme Torres e Roney Fernandes. O texto original é do Mark Sisson e está aqui.

Keto Tireoide – FACETHUMB

A dieta cetogênica é fantástica e todo mundo sabe.

Ela é uma ótima maneira de perder peso, melhorar a cognição e evitar doenças degenerativas.

Pode ajudar sua performance na academia e na pista de corrida.

E ainda pode melhorar o Alzheimer dos velhinhos.

Mas a dieta cetogênica é terrível para a sua tireoide… Certo?

Desde os opositores até os defensores da dieta cetogênica muitas vezes avisam que permanecer sempre em cetose irá prejudicar sua tireoide.

Como você talvez já saiba, a tireoide é uma glândula importante, e exerce grande influência sobre sistemas essenciais como:

  • fertilidade,
  • energia,
  • metabolismo,
  • regulação da temperatura do corpo,
  • lipídios do sangue, e
  • bem-estar geral.

E ela controla a taxa metabólica de todos os órgãos do corpo.

Por isso, queremos que a tireoide funcione bem.

E atrapalhar o funcionamento da tireoide seria um grande ponto negativo da dieta cetogênica — se isso fosse verdade.

Mas, felizmente, isso não é verdade.

Por isso, leia este texto até o final.

Porque, após sua leitura, você irá saber toda a verdade sobre:

  • Os erros comuns na dieta cetogênica que realmente impactam a tireoide
  • Quais os sintomas mais comuns de hipotireoidismo
  • Como ter uma glândula tireoide saudável e feliz.

Mas, antes de mais nada, vamos investigar qual é o problema com a maior parte dos estudos que trata sobre a saúde da tireoide e sua relação com a dieta cetogênica.

Dieta Cetogênica E Tireoide — O Que Os Estudos Dizem

Keto Tireoide 1

Antes de mais nada, temos de ressaltar uma característica comum da grande maioria dos estudos sobre os efeitos das dietas baixas em carboidratos e de alto teor de gordura sobre a saúde da tireoide.

O de que eles têm usado como base dietas com altos teores de PUFA e de gordura.

(Sendo que os PUFAs são os ácidos graxos poliinsaturados como o Ômega-3, Ômega-6, e Ômega-9.)

E isso poderia sim comprometer os resultados.

Isso porque o ácido linoleico (um tipo de ácido graxo ômega-6) suprime os sinais da tireoide.

Veja, por exemplo, a diferença que o tipo de gordura exerce na atividade tireoidiana no caso dos ratos.

Ratos em uma dieta de óleo de milho convertem menos T4 em T3 ativa do que ratos em uma dieta com banha.

Além disso, ratos em uma dieta de óleo de cártamo tiveram uma resposta metabólica ao T3 extremamente mais reduzida do que ratos em uma dieta de carne rica em gordura.

Em outro estudo, ratos em uma dieta rica em PUFA apresentaram mais quantidade da gordura marrom que é menos sensível ao hormônio tireoidiano.

(Sendo que a gordura marrom é aquela que gera calor para nos manter aquecidos.)

Talvez por isso, ratos em uma dieta rica em óleo de soja durante um longo período de tempo apresentaram uma péssima regulação da temperatura do corpo — uma função na qual a tireoide tem participação direta.

Outro exemplo clássico são os perus: quanto mais você os alimenta com ração à base de colza (da qual o óleo de canola rico em PUFA é derivado), pior a sinalização da tireoide fica — e, consequentemente, menos carne e menos ovos eles produzem.

O “incrível” é que nos anos 70, pesquisadores propuseram usar óleo vegetal como tratamento para o hipertireoidismo.

Porém esta redução dos sinais da tireoide não acontece com a ingestão de todos os tipos de gorduras poliinsaturadas.

Na verdade, existe um tipo de gordura poliinsaturada que aumenta a função da tireoide.

É o ômega-3, que costuma ser encontrado principalmente frutos do mar.

Portanto, vale a pena continuar comendo peixe, ou ao menos tomando um bom suplemento desse ácido graxo.

O Que Outros Indícios Nos Contam

Keto Tireoide 2

Infelizmente, ainda carecemos de estudos que façam uma comparação direta entre os efeitos sobre a função da tireoide em seres humanos de dietas ricas em gorduras do tipo PUFA versus dietas ricas em gorduras do tipo SFA/MUFA.

(Sendo que SFA é a sigla em inglês para ácidos graxos saturados (gordura saturada) e MUFA é a sigla também em inglês para ácidos graxos monoinsaturados.)

No entanto, alguns estudos oferecem indícios que podem ser reveladores.

Em 1995, pesquisadores separaram jovens adultos saudáveis em dois grupos.

Um dos grupos teria uma alimentação low-carb e alta em proteínas.

E o outro grupo teria uma dieta low-carb rica em gorduras, principalmente do tipo PUFA.

Sendo que o grupo da dieta rica em PUFA teve grandes quedas nos níveis de T3.

Mais tarde, o doutor Jeff Volek fez um estudo com adultos em dietas low-carb e ricas em gordura.

Nessa pesquisa, Volek prescreveu a alguns de seus pacientes uma dieta com as seguintes proporções:

  • 8% das calorias dos carboidratos;
  • 30% das calorias das proteína;
  • 62% das calorias das gorduras.

Sendo que as calorias das gorduras deveriam estar divididas da seguinte forma:

  • 25% vindas das gorduras saturadas (SFA),
  • 25% das gorduras monoinsaturadas (MUFA), e
  • 12% das gorduras poliinsaturadas (PUFA).

Apesar de ele não ter medido diretamente o hormônio T3, os resultados foram significativos.

As pessoas que ingeriram essa dieta rica em gordura apresentaram, ao final do estudo, níveis normais de hormônio T4.

E ainda por cima perderam uma quantidade significativa de gordura corporal.

Sendo que seria muito difícil que esses resultados ocorressem caso os indivíduos apresentassem hipotireoidismo.

Já em um outro estudo, muito mais antigo que esse, foi medida a regulação da temperatura corporal em dois grupos de pessoas.

Um deles era composto por pessoas em uma dieta low-carb high-fat (rica em creme de leite e manteiga), e o outro era formado com pessoas em dietas ricas em carboidratos e baixo teor de gordura.

Os dois grupos foram submetidos a várias horas de exposição a uma temperatura de —20°C, sob diferentes condições de alimentação.

Sendo que, no após jejuar, ambos os grupos reduziram a temperatura do corpo na mesma quantidade em resposta ao frio.

Porém, no cenário após comer, as coisas mudaram.

Aqueles que tiveram uma refeição com um alto teor de gordura apresentaram menores quedas na temperatura corporal quando comparados com o grupo de alto teor de carboidratos.

Isso sugere que, uma vez que a regulação da temperatura do corpo é controlada pela tireoide, esses 56 dias de dieta com alto teor de gordura (a partir de creme de leite e manteiga) tiveram um efeito positivo na função da tireoide.

>>> Relacionado: conheça os 10 sinais do hipotireoidismo

Pontos Principais Sobre A Dieta Cetogênica Que Passam Despercebidos

Keto Tireoide 3

É interessante notar que muitas pessoas relatam resultados de exames da tireoide não muito positivos após iniciar a cetose.

E isso acontece mesmo quando essas pessoas estão seguindo uma alimentação favorável ao bom funcionamento da tireoide.

Ou seja, ingerindo pouco óleo de soja, não exagerando nos alimentos goitrogênicos, e ainda comendo bastantes nutrientes pró-tireoide como a vitamina A, o iodo e o selênio.

Nesse caso, o que poderia estar acontecendo?

Ponto #1 — Restrição calórica

Fato é que a restrição calórica realmente pode diminuir o hormônio da tireoide — seja essa restrição proporcionada por uma dieta low-carb ou uma dieta low-fat.

Afinal de contas, a tireoide age meio que como um “barômetro da abundância de alimentos”.

Ou seja: se você está se alimentando bem, sua tireoide estará mais ativa.

E isso permite, por exemplo, que seu metabolismo fique mais alto e seus níveis de energia mais elevados ao longo do dia.

Por outro lado, se a comida está escassa, a tireoide se regulará para um menor nível de atividade, diminuindo o metabolismo, a energia e a fertilidade.

Simplificadamente, podemos dizer que a restrição calórica significa ao corpo que as coisas estão ruins e a comida é escassa — logo, o corpo interpreta que não existe tanta energia disponível quanto antes.

A dieta cetogênica é excelente em fazer as pessoas reduzirem a ingestão de calorias mesmo sem perceberem.

Na verdade, de certa forma, este é um de seus benefícios principais: o emagrecimento juntamente com uma alta saciedade.

Porém, um efeito colateral disso é que sua produção de T3 pode acabar diminuindo naturalmente.

Ponto #2 — Perda de peso

A perda de peso diminui a atividade da tireoide: independentemente da dieta utilizada, a perda de peso reduz a conversão de T4 em T3 ativo.

E o emagrecimento é uma ocorrência comum em uma dieta cetogênica.

Sendo, para muitos, o objetivo principal.

Relacionado: Conheça o plano de 91 dias para emagrecer com dieta cetogênica

Ponto #3 — Atividade física excessiva

Um outro motivo para a diminuição da atividade tireoidiana pode ser um excesso de atividade física.

Isso pode ocorrer especialmente se você estiver treinando com muita frequência, e muito intensamente, enquanto segue uma dieta cetogênica.

Quando você passa por um estresse psicológico ou fisiológico, o corpo converte T4 em algo chamado T3 reverso.

E T3 reverso faz o oposto do T3: ele reduz o metabolismo e economiza energia.

Afinal, seu corpo entende que as coisas podem estar desmoronando ao seu redor.

Isso até pode parecer uma resposta desproporcional de seu organismo quando você está “apenas” fazendo muito CrossFit sem comer carboidratos.

Mas lembre-se que as condições ambientais nas quais este sistema fisiológico se desenvolveu tinham como base estressores como fome, guerra e doenças.

Então a prioridade do seu corpo não é “ficar sarado” — e sim simplesmente sobreviver.

Tenho Baixos Níveis De T3 — Eu Preciso Me Preocupar?

Primal Paleo 1

De toda forma, talvez um pouco menos de T3 não seja necessariamente uma característica falha da cetose.

Na verdade, sabe-se que as criaturas que mais vivem na terra tendem a ter menores níveis de T3.

Inclusive os humanos que vivem mais, muitas vezes têm uma predisposição genética para níveis mais baixos de T3.

Informalmente, podemos encarar isso como se uma diminuição no metabolismo “atrasasse o envelhecimento”.

E se essa relação (entre níveis mais baixos de T3 e maior expectativa de vida) realmente existir, talvez seja positivo simular esta característica por meio da alimentação.

Porque isso poderia, no final das contas, fornecer benefícios em termos de longevidade.

Mesmo assim, você provavelmente irá muitas vezes ouvir que os carboidratos aumentam os níveis de T3.

(Essa ideia tende a ser um dos argumentos principais para uma realimentação de carboidratos ocasional.)

Ou, mais especificamente, que a tireóide aumenta a produção de T3 para lidar com a glicose.

E isso acontece porque o consumo de carboidratos aumenta a demanda de iodo.

Dessa forma, a tireóide irá requerer mais iodo para fazer mais T3, para assim poder lidar de forma correta com todos esses carboidratos.

Isto não significa que os carboidratos sejam bons ou maus para a sua tireoide.

Significa apenas que os carboidratos exigem mais T3 para serem metabolizados.

Este T3 “extra” é apenas necessário para o metabolismo da glicose, não necessariamente para “fazer você se sentir bem”.

Como um todo, uma dieta cetogênica bem desenvolvida e mantida de maneira correta tem o potencial de fazer seus hormônios tireoidianos ficarem mais eficientes.

>>> Relacionado: conheça nossa lista de compras para uma dieta cetogência saudável

Uma vez que você não estará queimando glicose em excesso, você vai poder ter níveis menores de T3 sem apresentar os sintomas negativos geralmente associados a isso.

Conclusão E Palavras Finais

Morissa 6

No final das contas, tudo se resume a como você se sente.

Se você tem um pouco de “hipotireoidismo” mas se sente bem, tem energia de sobra, não tem problemas para perder de peso ou manter a composição corporal, então não há razões para se preocupar.

Por outro lado, se você:

  • está tremendo de frio o tempo todo,
  • está com os lipídios nas alturas,
  • não consegue ter energia para fazer o básico da sua vida (e muito menos se exercitar ou ter performance),
  • está tendo problemas de fertilidade, e
  • se sente muito mal,

então realmente você tem um problema com o qual se preocupar.

Pois esses são alguns dos principais sintomas de hipotireoidismo.

Fato é que você saberá se a dieta cetogênica está prejudicando a sua tireoide.

É realmente difícil não notar.

Exames de tireoide podem ajudá-lo, mas os sintomas certamente são o principal.

Nós pessoalmente gostamos de seguir uma dieta cetogênica uma boa parte do tempo — e, de fato, nunca nos sentimos melhores.

E você, está em uma dieta cetogênica?

E como vai sua tireoide?

Vamos continuar essa conversa nos comentários abaixo.

Referências

Para deixar a leitura mais fluida, separamos algumas das referências citadas no texto original e as agrupamos aqui:

  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2352037
  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12077732?dopt=AbstractPlus
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19793640
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20739380
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21023298
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22184447
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23902316
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24882411
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3705
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3900181
  11. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10362629
  • Bruna, bom dia! Obrigado pela participação e pelos elogios. Ficamos felizes que tenha gostado do texto

    Você pode comer uma boa quantidade calórica vinda de gorduras e proteínas. Sendo assim será cetogênica e evitará perder peso

    Como a dieta trás grande saciedade, talvez seja o caso de “suplementar” gorduras, adicionando óleo de coco e manteiga ao café, regando com muito azeite a salada, etc. Esses são alguns exemplos.

    Mas para isso você pode ir realizando testes e acompanhando sempre na balança. Se seguindo sua fome você estiver mantendo o peso, ótimo. Caso contrário você pode ir aumentando a ingestão calórica até atingir a quantidade ideal de comida/calorias por dia

    Espero ter ajudado e continuo a disposição.