Colesterol: Será Que Você Deveria Ter Medo Dele?

Colesterol, colesterol alto, HDL, LDL, triglicerídeos…

Quanta coisa para se preocupar, não é mesmo?

A maior parte das pessoas têm a impressão de que o colesterol é algo “ruim”.

Sendo que elas podem até mesmo fugir de alimentos ricos em colesterol, pensando que eles não são saudáveis.

No entanto, será que os alimentos ricos em colesterol fazem mal mesmo?

E mais: será que o colesterol que está no seu sangue (aquele que medimos nos exames) está num nível saudável?

Ou será que você está correndo riscos sem saber?

Este é um assunto que rende muitas discussões.

E, por isso, vale a pena ler este artigo com muita atenção.

Porque, lendo até o final (são cerca de 15 minutos de leitura), você vai descobrir exatamente:

  • O que é o colesterol,
  • Por que as pessoas têm medo do colesterol,
  • Se você deveria evitar alimentos com colesterol,
  • Uma verdade surpreendente sobre colesterol e risco cardiovascular,
  • Se gordura saturada faz mal para você,
  • E quais marcadores observar em seus exames de sangue.

Portanto, é muito importante que você leia tudo até o final.

Sendo que este artigo é grandemente baseado na super entrevista que fizemos com o Nutri João Gabriel.

Foi um dos nossos episódios de podcast mais longos, com mais de 1h30min de verdades científicas.

E agora resumimos os pontos mais fundamentais dessa entrevista no artigo que você está lendo neste instante.

Ou seja: aqui estão as verdades que todas as pessoas deveriam saber sobre colesterol e saúde.

Sendo assim, vamos começar do começo: afinal de contas, o que é colesterol?

O Que É Colesterol?

De maneira resumida, o colesterol é um lipídio.

E os lipídios são um tipo de substância que não é solúvel em água.

No caso, o colesterol é um tipo de lipídio que existe apenas nos alimentos de origem animal.

E, justamente por não ser solúvel em água, ele sempre está associado a gorduras.

Por isso, alimentos ricos em colesterol tendem a ser aqueles alimentos de origem animal que são ricos em gorduras.

Alimentos ricos em colesterol

Alguns exemplos de alimentos ricos em colesterol incluem:

e muitos outros.

Ou seja: o colesterol está presente em alimentos de origem animal que são ricos em gordura — justamente porque, como falamos, ele não é solúvel em água.

E, por isso, no seu corpo ele não fica “solto” pela corrente sanguínea.

Na verdade, em nosso organismo, o colesterol é transportado por lipoproteínas (LDL e HDL, principalmente).

Sendo que existem diversos subtipos dessas lipoproteínas, e vamos falar deles mais à frente.

Antes disso, vamos entender por que o colesterol é importante para nós.

Colesterol No Nosso Corpo — Por Que Precisamos De Colesterol?

De maneira resumida, o colesterol exerce algumas funções fundamentais em nosso corpo, como:

  • auxiliar na produção de hormônios (o colesterol é a matéria-prima de muitos hormônios, inclusive hormônio sexuais como a testosterona);
  • compor a membrana das células;
  • auxiliar na produção da bile no fígado;
  • participar do metabolismo de vitaminas lipossolúveis (como as vitaminas A, D, E e K).

Ou seja: o colesterol é vital, e precisamos dele em nosso corpo.

Mas então, por que temos tanto medo dele?

Vamos ver rapidamente a perspectiva histórica dessa questão.

Por Que Temos Medo Do Colesterol No Sangue

Conforme Gary Taubes relata brilhantemente em seu livro Good Calories, Bad Calories, grande parte do medo que temos de ingerir gordura não passa de mitos.

Mitos estes que foram cristalizados pelo trabalho do médico americano Dr. Ancel Keys.

Keys acreditava que o consumo de gordura na dieta levava a níveis aumentados de colesterol sanguíneo.

E que era o colesterol sanguíneo que causava aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias, o que leva a doença cardíaca).

Esse é o resumo da história.

Mas por que ter medo do colesterol da alimentação?

Essa é uma ótima pergunta.

Pois, curiosamente, mesmo o Ancel Keys já sabia que o colesterol que comemos tem pouca ou nenhuma influência nos níveis de colesterol em nosso sangue.

E, como vimos, o colesterol é algo muito importante para o seu corpo.

Inclusive, quando você come pouco colesterol, o seu fígado produz mais colesterol para compensar.

(Assim como a glicose é importante para o seu corpo — então, seu corpo é capaz de produzir glicose a partir de outras “matérias-primas”.)

De toda forma, realmente é assustador que ainda existam pessoas com medo do colesterol alimentar.

Afinal de contas, mesmo grandes defensores (e proponentes) da teoria lipídica da doença cardiovascular — isto é, as pessoas com mais medo da gordura possível — já sabiam há décadas que o colesterol da alimentação não estava envolvido nessa questão.

Então como surgiu o medo do colesterol alimentar?

A verdade é que pesquisamos, pesquisamos, porém nada encontramos.

(Se você tem teorias, compartilhe conosco nos comentários ao fim do texto.)

Sendo assim, fica difícil atribuir a qualquer fator além de desinformação pura e simples essa confusão — presente mesmo em profissionais de saúde.

Porque a falta de relação direta entre o colesterol ingerido e o colesterol no sangue já está provada há décadas.

Colesterol E Gordura Saturada — Saúde Ou Política?

Agora, você vai entender uma verdade que talvez surpreenda muitas pessoas.

A de que as diretrizes governamentais não são baseadas em evidências — sendo na verdade influenciadas por interesses políticos.

Um exemplo simples é o caso do comitê McGovern.

Esse comitê foi formado nos Estados Unidos em 1968, e seu objetivo inicial era cuidar de casos de fome e desnutrição.

Com o passar dos anos, seu escopo foi se alargando.

Sendo que o comitê McGovern decidiu, em 1977, criar um novo conjunto de diretrizes nutricionais para a população.

A ideia por trás das diretrizes era combater condições fatais de saúde como doença cardíaca, câncer, derrame, hipertensão, obesidade, diabetes e aterosclerose.

O documento publicado sugeria que a dieta dos americanos tivesse:

  • menos gorduras,
  • menos colesterol,
  • menos açúcares processados, e
  • mais carboidratos complexos e fibras.

Sendo que o próprio termo “carboidratos complexos” nunca havia sido utilizado antes — foi no McGovern report que essa expressão surgiu, para se referir a frutas, vegetais e grãos integrais.

Resumindo: o enfoque passou a ser aumentar o consumo de frutas, vegetais, e grãos, e reduzir o consumo de carne, ovos, e laticínios.

Atualmente, entende-se que as diretrizes elaboradas pelo comitê McGovern são as precursoras das diretrizes nutricionais americanas atuais (revisadas a cada 5 anos).

E que elas mantêm viva a tradição de utilizar as evidências científicas de maneira “seletiva” e enviesada (o chamado cherry-picking).

Mas ok, chega de história e política — é hora de investigar o que diz a ciência.

Colesterol — O Que Diz A Ciência

Até agora, nós entendemos alguns pontos importantes a respeito do colesterol.

Primeiro, entendemos que o colesterol da dieta não tem uma influência direta nos níveis de colesterol no sangue.

Segundo, vimos que as pessoas têm medo da gordura porque têm sido orientadas a temer esse nutriente.

Pois a gordura elevaria os níveis de colesterol no sangue, o que seria um fator de risco para doenças cardiovasculares.

Levando à conclusão de que “quem come mais gordura morre mais do coração”.

Perceba que essa teoria é baseada em duas hipóteses, que vamos investigar agora.

  • Hipótese #1: a gordura da dieta influencia os níveis de colesterol no sangue.

e

  • Hipótese #2: os níveis de colesterol no sangue são bons preditores de risco cardiovascular.

No entanto, não precisamos esmiuçar cada uma das hipóteses, porque podemos “trapacear” e ir direto aos resultados.

Isto é: em vez de verificar a veracidade de cada uma das hipóteses, podemos ver o que dizem os estudos que avaliaram ingestão de gorduras e morte por doença cardiovascular.

O que dizem os grandes estudos

Se essa teoria fosse verdadeira, estudos teriam de mostrar a seguinte conclusão inequívoca.

A de que comer gordura causa mortes por doença cardiovascular.

No entanto, não é isso que os estudos mostraram.

Na verdade, dois grandes estudos (MRFIT e WHI — um com homens e outro com mulheres, respectivamente), contando com milhares de pacientes cada um, falharam em encontrar a relação entre consumo de gordura e morte por doença cardiovascular.

O que refuta completamente essa teoria.

Afinal, se a gordura da dieta realmente levasse a mais mortes por doença cardiovascular… então deveríamos ver isso acontecer na prática, em grandes grupos populacionais.

Mas isso simplesmente não acontece.

O que é o bastante para jogar por terra essa teoria.

Afinal de contas, como diz o nosso querido Dr. Souto:

A realidade tem primazia sobre os mecanismos.”

Pois podemos especular o quanto quisermos, e criar uma infinidade de teorias.

No entanto, se a realidade não apoia essas teorias… é hora de mudar as teorias.

Além disso, uma revisão de estudos epidemiológicos de 2015 do British Medical Journal chegou à mesma conclusão (de que um maior consumo de gordura saturada não está associado a mais mortes).

E, por fim, um ensaio clínico randomizado testou uma dieta low-carb contra uma dieta low-fat para fatores de risco cardiovasculares — e não observou maiores riscos na dieta low-carb.

Resumindo: comer gordura não causa mais mortes por doenças cardiovasculares (já tínhamos falado disso aqui).

Certo, comer gordura não mata.

Mas e o colesterol no sangue? Ele é útil para prever mortalidade?

E ainda: será que ele causa mortalidade?

Afinal, Colesterol No Sangue É Um Fator De Risco?

Nesta parte, vamos voltar a citar as palavras do Nutri João Gabriel em nossa entrevista.

Quando perguntamos a respeito dos níveis de colesterol no sangue, o João respondeu o seguinte.

Que o colesterol aumentado é, sim, um fator de risco importante; principalmente se for o colesterol LDL.

Então, uma pessoa comum vai fazer o seu exame de sangue e observa que o seu colesterol LDL está aumentado.

E o LDL aumentado é um indicativo a se prestar atenção.

Mas o importante não é saber simplesmente se ele está aumentado ou não.

É entender o porquê de ele estar aumentado — como isso aconteceu.

E de fato — comer mais gordura saturada leva, sim, a um aumento no colesterol.

Mas isso não quer dizer que comer gordura saturada leve a um risco cardiovascular aumentado.

Porque o mecanismo pelo qual a gordura saturada leva ao aumento de colesterol é diferente do mecanismo que leva a um aumento de colesterol de uma pessoa com sobrepeso.

Então, a grande questão é como esse colesterol se tornou aumentado.

Em 90% ou mais dos casos, as pessoas apresentam um aumento de colesterol por causa de uma desregulação metabólica.

Essa desregulação geralmente acontece junto com o aumento de peso, com o acúmulo de gordura corporal.

E esse acúmulo de gordura corporal, esse aumento de peso, leva a um quadro de resistência à insulina que, por sua vez, vai evoluindo.

A pessoa chega no sobrepeso, depois pode chegar à obesidade, desenvolve Síndrome Metabólica e depois da Síndrome Metabólica, o Diabetes tipo 2.

Ou seja: é uma sequência de eventos.

E desde o começo dessa sequência (que se iniciou com aumento de peso) você já vai observar um aumento no colesterol sanguíneo.

E também outros marcadores:

  • a glicemia sobe,
  • os triglicerídeos sobem,
  • o colesterol HDL cai,

então o LDL aumentado é só mais um marcador desregulado.

Ou seja: mais importante do que o LDL em si (que pode subir porque a pessoa passa a fazer uma dieta com mais gordura saturada), é a saúde metabólica do indivíduo como um todo.

Por isso, se você faz uma dieta que melhora sua saúde metabólica no geral (glicemia diminui, triglicérides diminuem, HDL aumenta) mas ela traz consigo um aumento do LDL…

Então provavelmente seu risco cardiovascular está menor do que antes — mesmo que o LDL esteja mais alto.

(E note que todos esses resultados positivos — glicemia menor, triglicérides menores, HDL maior — são benefícios ligados a uma dieta low-carb.)

Muito Além Do Colesterol LDL: Outros Marcadores De Risco Cardiovascular

O nutri João Gabriel ainda argumenta que “só de olhar para uma pessoa, você consegue saber se ela está bem metabolicamente ou não”.

Isto é: mesmo sem você conhecer a pessoa, e mesmo sem ver os exames dessa pessoa, você consegue observar se ela está com evidente sobrepeso.

E, mais ainda: com aumento na circunferência da cintura.

Sendo que esse aumento na circunferência da cintura nem precisa ser muito grande — pois existem várias pessoas que (aparentemente) são magras.

Mas que visivelmente já estão com aumento na circunferência abdominal.

E esse já é um indicativo claro de que essa pessoa provavelmente está com a saúde metabólica um pouco prejudicada.

Sendo assim, vamos elencar outros fatores que são bons indicativos de uma piora na saúde metabólica.

Fatores de risco para doenças cardíacas mais importantes que o colesterol total

De maneira resumida, idealmente teremos:

  • o resultado da divisão do colesterol total pelo HDL deve ser inferior a 4,5,
  • o resultado da divisão dos triglicerídeos pelo HDL deve ser inferior a 2,0,
  • o resultado da divisão da cintura pela altura deve ser inferior a 0,5,
  • (sendo que geralmente se assume um limite da circunferência de 102 cm para homens e 88 cm para mulheres).

Ou seja:

  • se você emagrecer,
  • diminuir a circunferência abdominal,
  • diminuir os triglicerídeos,
  • aumentar o HDL, e
  • as suas frações de colesterol melhorarem,

ao seguir uma dieta mais alta em gordura ou baixa em carboidratos

Então você está com menos risco cardíaco do que uma pessoa que come baixas gorduras e tem colesterol total baixo — mas com essas frações todas erradas — e uma grande barriga.

Mas e o Colesterol Total? Ele não é um marcador?

Sim, ele é um marcador — mas ele é só mais um marcador, que não pode ser analisado isoladamente.

Por exemplo, suponha o caso de um paciente:

  • que esteja engordando, e
  • cujo exame de sangue mostre:
  • diminuição no colesterol total,
  • aumento dos triglicerídios,
  • diminuição do HDL.

Então o quadro dele é sim preocupante — mesmo havendo diminuição no colesterol total.

Por outro lado, se o LDL e o HDL aumentarem, o colesterol total também vai aumentar — o que nem sempre é ruim.

Até porque boa parte desse aumento pode ser devida ao HDL — chamado popularmente de “colesterol bom”.

Sendo que o aumento do HDL provavelmente vai deixar proporção entre HDL e LDL ainda melhor.

E essa proporção é mais importante do que o colesterol total isoladamente.

(De fato, o HDL pode ser considerado um “protetor” da saúde cardíaca.)

Exemplificando: uma pessoa que tivesse 180 de colesterol total e 30 de HDL teria mais risco cardíaco (levando-se em conta apenas esse marcador) do que outra que tivesse 200 de colesterol total e 50 de HDL.

No primeiro caso, a razão entre colesterol total e HDL daria 6, e no segundo daria 4.

Ou seja, aumentando 20 pontos em cada um, ela está mais protegida do que se ela estivesse na primeira situação.

No entanto, nem sempre apenas o HDL aumenta numa dieta low-carb.

Pois, muitas vezes, o LDL também aumenta.

O LDL (lipoproteína de baixa densidade), costuma ser temido pelas pessoas, e chamado de “colesterol ruim”.

(Embora, na nossa opinião, não faça muito sentido chamar de “ruim” algo que nosso próprio corpo produz — e que é necessário para viver.)

De toda forma, uma dieta low-carb high-fat pode sim causar uma elevação do LDL — porém ela tende a trocar o tipo de LDL.

Pois nem todos os LDLs são iguais.

De fato, existem dois tipos de LDL: um com partículas mais benéficas, e um com partículas mais perigosas.

E, ao se seguir uma dieta baixa em carboidratos e alta em gordura, o que pode acontecer é um aumento dessas partículas mais benéficas e uma diminuição das partículas mais perigosas.

Outros fatores de risco

E não podemos esquecer que existem outros fatores que influenciam o seu risco de eventos cardiovasculares.

Por exemplo, alguns indicadores que aumentam o risco:

  • ser fumante,
  • ser hipertenso,
  • ser homem,
  • ser mais velho,
  • ser diabético,

dentre outros.

Todos esses fatores (além das frações HDL e LDL) são levados em conta na calculadora de risco cardiovascular da AHA (American Heart Association).

(Você pode clicar aqui para fazer simulações nela.)

Além disso, note que mesmo a AHA não usa o valor de LDL como valor de entrada em sua calculadora de risco (justamente por ele não ser tão significativo assim).

Resumindo: todos esses exames — glicemia, triglicerídeos, colesterol LDL e colesterol HDL — são marcadores, que vão indicar como está a saúde metabólica da pessoa.

E é por isso que essas frações (como a razão entre triglicerídeos e HDL, por exemplo) são tão úteis.

Porque elas ajudam a indicar se o corpo está num estado metabolicamente prejudicado.

Elas não são a causa do problema, mas sim indicativos de que há algum problema.

Numa analogia, elas são como uma luz no painel do carro, que acende para avisar quando existe um problema.

Se você só apagar essa luz, isso não vai resolver o problema.

Não adianta só apagar a luz

E é por isso que simplesmente pegar um alimento que reduz o colesterol, como por exemplo a linhaça, e começar a usar para fazer uma vitamina, não adianta nada.

(Na nossa opinião, é melhor pegar essa linhaça e usar para fazer um pão low-carb delicioso.)

Porque, mesmo se isso provocar uma diminuição do seu colesterol, você estará apenas “apagando a luz”.

Você não estará indo na raiz do problema para eliminá-lo.

E, com tudo isso, voltamos à questão da gordura saturada e do colesterol.

Gordura Saturada E Colesterol: Acende A Luz, Mas Não Causa Problema

Então onde a gordura saturada e o aumento do colesterol pelo aumento de gorduras entram nessa história?

Entram justamente no ponto de que comer gordura saturada pode levar a um aumento de colesterol.

Isto é: se você é uma pessoa saudável, e passar a consumir mais gordura saturada, existem boas chances de acontecer um aumento de colesterol.

(Algumas pessoas vão apresentar esse aumento, e outras não.)

Mas a pergunta real é: você deveria se preocupar com esse aumento no colesterol LDL?

Não. Caso você apresente um aumento no colesterol, nesse caso, não é um problema.

Por quê?

Porque, como dissemos antes, o colesterol aumentado não é uma causa de doença cardiovascular.

Ele é um indicativo de problemas metabólicos no caso de uma pessoa que ganha peso, que desenvolve resistência à insulina.

Mas, no caso de uma pessoa que só come mais gordura saturada, ele “aumentou por aumentar”, sem consequências para a saúde.

Trata-se de uma resposta natural do corpo.

(Observação: claro que seu colesterol não deve atingir valores estratosféricos — leia esta postagem do Doutor Souto para entender.)

Então, como não existe um problema real por trás, esse aumento também não é problemático.

Ele é só uma resposta natural do corpo — algumas pessoas respondem dessa forma e outras não.

Resumindo os marcadores

Se você tem preocupação com risco cardiovascular (e provavelmente você deveria ter), lembre-se de olhar outras variáveis no seu exame de sangue além do colesterol total.

A saber:

  • Colesterol LDL,
  • Relação entre colesterol total e HDL,
  • Triglicérides,
  • Glicemia,
  • HOMA-IR (pode ser importante para avaliar a resistência à insulina),

Além de medidas que não exigem que você tire seu sangue, como seu peso e sua circunferência abdominal.

Colesterol No Sangue — Devemos Tratar Números?

Resumidamente… não: nós não precisamos “tratar números” (ou seja, buscar diminuir os números em nosso exame de sangue).

Porque, conforme evidenciamos acima, o colesterol funciona melhor como marcador de problemas do que como fator causal.

Sendo assim, muitas vezes estaríamos apenas “apagando a luz”, em vez de resolvermos os problemas.

Mas claro que há casos e casos, e só um profissional atualizado vai poder te dizer o que fazer no seu caso específico.

Colesterol: Tipos E Subtipos

Mas é importante notar o seguinte.

Por mais que as lipoproteínas que carregam o colesterol (como LDL e HDL) sejam chamadas popularmente de “Colesterol bom” e “Colesterol ruim”, isso não conta a história completa.

Afinal de contas, como o LDL seria uma coisa necessariamente ruim para o corpo se precisamos dele para funcionar completamente?

De acordo com o Nutri João Gabriel, faz mais sentido (novamente!) pensar nelas como marcadores.

Sendo que, nos últimos anos, tem-se falado muito sobre LDL.

Especialmente sobre tamanho das partículas LDL e número de partículas de LDL.

Inclusive, muita gente fala que nós deveríamos esquecer o colesterol LDL — e olhar basicamente para os números de partículas e para os tamanhos dessas partículas.

Isso porque alguns estudos têm mostrado que:

  • as partículas menores de LDL, porém
  • em grande número,

seriam as “culpadas”.

Pois seriam responsáveis pelo desencadeamento dos principais processos que levam ao desenvolvimento da aterosclerose.

E, consequentemente, a doenças cardiovasculares como o infarto e o derrame.

Mas, mesmo assim, essa é uma visão que extrapola o que algumas evidências apontam.

Por isso, ainda faz sentido pensar nelas como marcadores.

E observe que já foi demonstrado que pessoas com Resistência à Insulina, Síndrome Metabólica e Diabetes sempre apresentam um maior número de partículas de LDL e partículas com tamanho menor.

Ou seja: podemos pensar que o aumento no número de partículas, e a diminuição no tamanho dessas partículas, também é consequência do estado metabólico pelo qual o corpo passa.

Então, todas essas modificações e alterações nos marcadores são consequências desse estado metabólico prejudicado.

E é por isso que, antes de qualquer coisa, todos esses exames são marcadores — ou seja, indicativos do que está acontecendo.

Entendi que elas são marcadores importantes — devo pedir exames disso?

Existe valor em pedir exames como o tamanho de partículas ou número de partículas de LDL?

No caso, o número de partículas é mais fácil de pedir.

Porque, aqui no Brasil, existe um exame chamado Apo-B que mede quase que diretamente isso.

E essa informação tem seu valor — mas ela não é, de maneira nenhuma, essencial.

Por quê?

Porque, com os exames mais comuns, nós já conseguimos ter justamente a ideia do estado metabólico do corpo.

Por isso, apenas com os exames comuns (colesterol e frações, glicemia, talvez insulina) nós conseguimos saber o que está acontecendo — se há algum problema ou não.

E apenas em poucos casos nós realmente vamos precisar de exames mais avançados.

Ao mesmo tempo, alguns pesquisadores acreditam que as partículas pequenas, densas e numerosas de LDL são agentes causais dos problemas cardiovasculares.

E que, por isso, faria sentido medi-las e acompanhar seu desenvolvimento ao longo do tempo.

Todavia, como elas estão correlacionadas com a saúde metabólica do corpo…

Será que não faz mais sentido simplesmente manter um bom estado metabólico?

(E, a título de observação, saiba que o HDL também apresenta variações de tamanho e número de suas partículas.

Mas que os efeitos destas na saúde são até agora bem menos estudados.)

De toda forma, é claro que pode existir uma utilidade em entender como as partículas maiores ou menores, em maior ou menor número funcionam.

No entanto, esse conhecimento não tende a ser necessário para estimar o risco da maior parte das pessoas.

Pois os exames convencionais são suficientes para sabermos como a pessoa está.

Mas Senhor Tanquinho, e se essa relação de tamanhos e número de partículas realmente for a causa da doença cardiovascular, e a chave para entendermos isso de uma vez por todas?”

É um questionamento válido — mas o nutri João Gabriel discorda desse raciocínio, devido ao seguinte fato.

O de a maioria dos estudos mostrarem que partículas menores e em maior quantidade estão, de fato, associadas a um maior risco cardiovascular.

Mas, ao mesmo tempo, existirem alguns estudos mostrando justamente o contrário.

E, quando nós temos um estudo que mostra exatamente o contrário do que a maioria mostra (no caso dos estudos observacionais ou de associação) isso geralmente é o suficiente para falar o seguinte.

“Essa hipótese tem um certo mérito — mas ela provavelmente está incompleta ou errada.”

Essa é melhor forma de olhar para os estudos observacionais (que não são capazes de estabelecer causa e efeito, lembre-se).

Claro, se todos os estudos mostrassem uma associação muito forte, inequívoca — assim como ocorreu no caso do fumo (que de fato causa câncer de pulmão) — seria outra história.

No entanto, quando há alguns estudos mostrando resultados totalmente opostos, a gente tem todas as razões para acreditar que essa hipótese está, no mínimo, incompleta.

E é por isso que os estudos observacionais têm de ser tratados com muito cuidado.

Porque, quando nós falamos de partículas de LDL, número de partículas e tamanho de partículas, nós temos bons estudos mostrando uma boa associação entre esses dois fatores — mas nós temos estudos mostrando justamente o contrário.

E isso é suficiente para levar a crer que relação de causalidade não seja tão certa assim.

Na verdade, faz mais sentido pensar que essa associação existe justamente porque as partículas de LDL são marcadores.

Porque o estado metabólico prejudicado da pessoa faz com que vários marcadores que têm relação com o metabolismo energético se tornem alterados.

E isso inclui o tamanho das LDLs, o número (contagem) delas, e mesmo as VLDLs.

São vários indicativos distintos de que algo não está bem.

Colesterol — Conclusão E Palavras Finais

Sabemos que este artigo ficou longo…

Mas julgamos necessário abordar os pontos tratados aqui — até porque o colesterol é um assunto permeado por muitos mitos e lendas.

Então é importante evidenciar um pouco dos fatos.

Sendo assim, buscamos resumir muitas das informações importantes de que você precisa, como:

  • o que é colesterol, e por que ele é importante para você,
  • o fato de que o colesterol no seu corpo não é muito influenciado pelo colesterol da sua alimentação,
  • quais são alguns tipos de lipoproteínas que carregam o colesterol no seu corpo,
  • por que as pessoas temem a gordura saturada — que pode sim “elevar o colesterol”, mas
  • por que esse temor é em grande parte infundado.

Todavia, se você tirar apenas uma lição deste artigo, queremos que ela seja a seguinte.

A de que você deve pensar no colesterol (e suas frações) como mais um marcador da sua saúde metabólica.

Pois de nada adianta reduzir níveis de colesterol artificialmente (com estatinas, por exemplo), se o restante da sua saúde está em frangalhos devido ao consumo excessivo de substâncias comestíveis.

E que, ao mesmo tempo, você não tem que temer o colesterol se ele aumentar devido a uma dieta rica comida de verdade, comendo salmão feito no óleo de coco.

(23% dos lipídios do salmão são gordura saturada — e mais de 80% do óleo de coco também.)

Por outro lado, essa heurística (regra prática) é uma generalidade.

Pois recomendações específicas têm de ser dadas pelo seu profissional — até para levar em consideração sua situação particular, genética, e outros fatores relevantes.

Mas, de modo geral, a gordura natural dos alimentos não vai te matar — e nem o colesterol contido neles.

Por fim, queremos sugerir leituras adicionais caso você deseje se aprofundar neste assunto.

A primeira é a nossa entrevista com o nutri João Gabriel, que inspirou e embasou grande parte do conteúdo deste post.

A segunda é a leitura do livro Good Calories, Bad Calories, do Gary Taubes.

Ele conta em mais detalhes toda essa história do medo da gordura e da verdade política por trás das diretrizes alimentares.

E a terceira são alguns artigos sobre colesterol do blog do Doutor Souto.

São 3 artigos que ele traduziu e/ou comentou, e que ajudam a elucidar alguns pontos mais específicos sobre o assunto:

  1. http://www.lowcarb-paleo.com.br/2013/02/colesterol-iv.html
  2. http://www.lowcarb-paleo.com.br/2013/02/colesterol-v-causa-e-efeito-versus.html
  3. http://www.lowcarb-paleo.com.br/2013/09/colesterol-viii-e-melhor-ter-um.html

Esperamos ter ajudado você a entender um pouco mais desse fascinante mundo da saúde e alimentação.

Forte abraço!

Referências

Para deixar a leitura mais fluida, separamos e agrupamos aqui as referências utilizadas para composição do texto.

  1. Howard, W. J. (2007). Low-Fat Dietary Pattern and Risk of Cardiovascular Disease: The Women's Health Initiative Randomized Controlled Dietary Modification Trial. Yearbook of Medicine, 2007, 525–527. http://doi.org/10.1016/S0084-3873(08)70308-0
  2. https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/377969
  3. https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Senate_Select_Committee_on_Nutrition_and_Human_Needs
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3770092/
  5. Keys, A., Anderson, J. T., & Grande, F. (1965). Serum cholesterol response to changes in the diet: II. The effect of cholesterol in the diet. Metabolism: Clinical and Experimental, 14(7), 759–765.
  6. http://nutritiondata.self.com/facts/finfish-and-shellfish-products/4258/2
  7. Hu, T., Yao, L., Reynolds, K., Whelton, P. K., Niu, T., Li, S., et al. (2015). The Effects of a Low-Carbohydrate Diet vs. a Low-Fat Diet on Novel Cardiovascular Risk Factors: A Randomized Controlled Trial. Nutrients, 7(9), 7978–7994. http://doi.org/10.3390/nu7095377
  8. Intake of saturated and trans unsaturated fatty acids and risk of all cause mortality, cardiovascular disease, and type 2 diabetes: systematic review and meta-analysis of observational studies. (2015). Intake of saturated and trans unsaturated fatty acids and risk of all cause mortality, cardiovascular disease, and type 2 diabetes: systematic review and meta-analysis of observational studies., 351, h3978. http://doi.org/10.1136/bmj.h3978